Uma questão que
frequentemente surge na teologia cristã diz respeito à condição espiritual das
crianças pequenas: Deus considera culpada uma criança que ainda não possui capacidade
para compreender moralmente o bem e o mal?
A Bíblia ensina claramente que
toda a humanidade foi afetada pela queda de Adão (Rm 5:12; 1Co 15:22).
Entretanto, isso não
significa necessariamente que Deus impute às crianças pequenas pecados pessoais e conscientes da mesma maneira
que os imputa àqueles que possuem discernimento moral.
Desde o Antigo Testamento encontramos uma importante distinção entre a condição caída da humanidade e a
responsabilidade pessoal daquele que conscientemente transgride a vontade de Deus.1. As crianças que ainda não conhecem o bem e o mal
Um
dos textos mais importantes encontra-se em Deuteronômio. Depois da rebelião de
Israel em Cades-Barneia, Deus anunciou que aquela geração não entraria na Terra
Prometida. Contudo, ao falar das crianças, fez uma distinção:
“E vossos meninos, de quem dissestes: Por presa serão; e vossos
filhos, que hoje nem sabem o bem nem o mal, eles ali entrarão, e a eles a
darei, e eles a possuirão.” (Dt 1:39)
Observe a expressão utilizada
pela própria Escritura: “nem sabem o bem nem o mal”.
Os
adultos haviam recebido revelação, presenciado os atos poderosos de Deus e,
mesmo assim, rebelaram-se conscientemente. As crianças pequenas, porém, não
foram tratadas por Deus como participantes moralmente responsáveis daquela
rebelião.
Isso estabelece um princípio
importante: Deus leva em consideração a capacidade de discernimento moral do
indivíduo.
2. Existe uma fase anterior ao discernimento moral
Isaías
apresenta outro texto fundamental:
“Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher
o bem…” (Is 7:16)
Independentemente das questões
proféticas relacionadas ao contexto imediato da passagem, a declaração
pressupõe algo evidente: existe uma fase da vida em que a criança ainda não sabe rejeitar o mal e escolher o bem.
Portanto,
a própria Escritura reconhece uma etapa anterior ao pleno discernimento moral.
Isso
não significa que a criança possua uma natureza absolutamente pura ou
independente dos efeitos da queda. Significa que ela ainda não possui a
capacidade necessária para uma transgressão moral consciente equivalente àquela
praticada por quem conhece a vontade de Deus e deliberadamente a rejeita.
3. O julgamento da geração do deserto confirma essa distinção
Encontramos
o mesmo princípio em Números 14.
Depois
da incredulidade de Israel, Deus declarou:
“Neste deserto cairá o vosso cadáver, como também todos os que de
vós foram contados segundo toda a vossa conta, de vinte anos para cima…” (Nm
14:29)
Mas
logo acrescentou:
“Mas aos vossos filhos, de que dizeis: Por presa serão,
introduzirei nela, e eles conhecerão a terra que vós desprezastes.” (Nm 14:31)
Novamente
encontramos uma distinção entre os que participaram conscientemente da rebelião
e seus filhos.
Evidentemente, esse texto não
estabelece uma “idade universal da responsabilidade” aos vinte anos. O contexto
está relacionado especificamente ao julgamento daquela geração de Israel.
Entretanto, demonstra que Deus não atribuiu automaticamente
aos filhos a culpa consciente da geração rebelde.
4. A Bíblia ensina responsabilidade pessoal
Ezequiel
estabelece claramente o princípio da responsabilidade individual:
“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade
do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho.” (Ez 18:20)
O
filho não é pessoalmente culpado pelos atos praticados pelo pai.
Naturalmente,
devemos distinguir isso da doutrina da queda. Paulo ensina que o pecado entrou
no mundo por meio de Adão e que a morte passou a todos os homens (Rm 5:12–19).
Portanto, ninguém nasce fora dos efeitos da queda.
Mas uma coisa é participar da condição humana caída; outra é Deus imputar ao
indivíduo transgressões pessoais praticadas consciente e voluntariamente.
Essa
distinção é essencial.
5. Deus considera a capacidade de discernimento
No
final do livro de Jonas encontramos uma declaração interessante. Deus pergunta
ao profeta:
“E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que
estão mais de cento e vinte mil homens que não sabem discernir entre a sua mão
direita e a sua mão esquerda…?” (Jn 4:11)
Há
diferentes interpretações sobre quem exatamente seriam esses 120 mil. Alguns
entendem a expressão como referência às crianças; outros a interpretam de
maneira mais ampla.
De qualquer modo, o texto revela
algo sobre o caráter de Deus: a incapacidade de discernimento
é levada em consideração em seu trato misericordioso com os seres humanos.
6. Jesus ensinou que responsabilidade acompanha conhecimento
Esse
princípio torna-se ainda mais claro no Novo Testamento.
Jesus
declarou:
“Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não
se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será punido com muitos açoites.
Aquele, porém, que não soube e fez coisas dignas de açoites será punido com
poucos.” (Lc 12:47–48)
O princípio é evidente: responsabilidade moral está relacionada ao conhecimento recebido.
Quanto maior a revelação e a compreensão, maior a
responsabilidade.
Por
isso, não parece biblicamente adequado colocar uma criança que ainda não
consegue distinguir moralmente o bem do mal na mesma situação de um adulto que
conhece conscientemente a vontade de Deus e deliberadamente a rejeita.
7. Jesus e as crianças
O
tratamento de Jesus para com as crianças também merece atenção.
Quando
tentaram impedir que elas fossem levadas até Cristo, Jesus repreendeu seus
discípulos:
“Deixai vir os pequeninos a mim e não os impeçais, porque dos tais
é o Reino de Deus.” (Mc 10:14)
Mateus
registra declaração semelhante:
“Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos
tais é o Reino dos céus.” (Mt 19:14)
Jesus
não apresenta as crianças como objetos da ira divina, mas as recebe, abençoa e
utiliza sua condição como ilustração relacionada ao Reino de Deus.
Isso
oferece forte fundamento pastoral para confiarmos na graça e misericórdia de
Deus em relação às crianças pequenas.
8. Isso significa que as crianças nascem sem pecado?
Não.
É
importante evitar o extremo oposto.
A
Bíblia ensina que toda a humanidade sofre as consequências da queda de Adão.
Davi declarou:
“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha
mãe.” (Sl 51:5)
Paulo
também ensina que, por meio de um homem, o pecado entrou no mundo e, pelo
pecado, a morte (Rm 5:12).
Portanto,
não estamos afirmando que crianças pequenas sejam seres humanos independentes
da queda ou que não necessitem da graça de Deus.
Nossa
afirmação é mais específica:
Uma coisa é possuir uma natureza humana afetada pela queda; outra
coisa é possuir responsabilidade moral suficiente para que pecados pessoais e
conscientes sejam imputados ao indivíduo.
9. Existe uma “idade da responsabilidade”?
A Bíblia não estabelece uma idade cronológica universal — sete, oito, doze, treze ou qualquer outro número — a partir da qual toda criança automaticamente se torna moralmente responsável diante de Deus.
A expressão “idade da responsabilidade” é uma formulação
teológica utilizada para descrever um princípio encontrado nas Escrituras.
Deuteronômio 1:39 fala daqueles
que ainda “não sabem o bem nem o mal”. Isaías 7:16 menciona
o momento anterior a o menino saber “rejeitar o mal e escolher o
bem”.
Portanto, o ponto central não é
simplesmente a idade cronológica, mas a capacidade real de
discernimento moral.
Deus
conhece perfeitamente cada ser humano. Ele sabe exatamente quando existe
compreensão, consciência e responsabilidade moral.
10. E se uma criança pequena morrer?
É
justamente aqui que esses textos oferecem grande consolo.
Não
precisamos imaginar Deus condenando uma criança pequena por rejeitar
conscientemente um Evangelho que ela sequer tinha capacidade intelectual e
moral para compreender.
Nossa esperança não está numa
suposta inocência absoluta da criança, mas na graça de Deus e na
suficiência da obra de Cristo.
A
criança também necessita de Cristo. Contudo, a aplicação da graça divina não
está limitada à capacidade de uma criança pequena formular intelectualmente uma
profissão de fé.
Deus
é perfeitamente justo:
“Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18:25)
E
Cristo demonstrou claramente seu amor pelos pequeninos.
Conclusão
O
conjunto das Escrituras permite estabelecer algumas verdades importantes:
1. Toda criança nasce pertencendo a uma humanidade afetada pela queda de Adão (Rm 5:12).
2. A Bíblia reconhece uma fase em que a criança ainda não sabe discernir o bem e o mal (Dt 1:39; Is 7:16).
3. Deus distingue responsabilidade pessoal de culpa alheia (Ez 18:20).
4. responsabilidade moral está relacionada ao conhecimento e à compreensão da vontade de Deus (Lc 12:47–48).
5. Jesus demonstrou especial acolhimento aos pequeninos e declarou que “dos tais é o Reino de Deus” (Mc 10:14).
6. A Bíblia não determina uma idade cronológica universal para a responsabilidade moral.
7. Temos fortes razões bíblicas para confiar que crianças pequenas que ainda não possuem discernimento moral estão debaixo da misericórdia de Deus, pela graça fundamentada na obra de Cristo.
Assim,
podemos fazer uma distinção teológica importante:
A criança pequena possui uma natureza humana afetada pela queda,
mas Deus não lhe imputa pecados pessoais como os imputa àquele que possui discernimento
moral e conscientemente escolhe transgredir sua vontade.
A salvação continua sendo inteiramente pela graça de Deus e fundamentada exclusivamente na obra redentora de Jesus Cristo.
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