Pode um cristão jurar guardar segredos que ainda nem conhece?
Uma das questões mais sérias
envolvendo a compatibilidade entre a fé cristã e a Maçonaria encontra-se nos
juramentos — chamados também de “obrigações” — prestados durante seus graus
iniciáticos. O problema não é apenas a existência de uma promessa de confidencialidade.
A questão é muito mais profunda: o candidato coloca Deus como testemunha de uma
obrigação solene de guardar segredos que, naquele momento, ele sequer conhece
completamente.
Como alguém pode comprometer sua
consciência diante de Deus com aquilo cujo conteúdo ainda lhe é desconhecido?
É exatamente esse ponto que precisa ser
examinado à luz das Escrituras.1. O juramento do Aprendiz Maçom
Rituais maçônicos historicamente
publicados registram que, no grau de Aprendiz, o candidato é colocado diante do
altar e assume uma “solene obrigação”. Uma versão publicada do ritual declara
que o candidato promete e jura:
“sempre
ocultar e nunca revelar”
os mistérios da Maçonaria que lhe
foram ou posteriormente lhe serão comunicados.
Outra transcrição do ritual é ainda
mais explícita ao dizer que o juramento alcança os mistérios que o candidato
“recebeu, está para receber ou poderá posteriormente aprender”.
O ritual termina invocando a ajuda de
Deus para que o candidato permaneça fiel à obrigação assumida.
Algumas versões históricas também
contêm penalidades simbólicas extremamente severas relacionadas à violação do
compromisso.
Aqui surge uma questão incontornável
para o cristão:
Como posso colocar
Deus como testemunha de minha fidelidade a informações que ainda desconheço?
O candidato não está simplesmente dizendo: “Não revelarei aquilo que sei ser legítimo e moral”. Ele assume antecipadamente o compromisso de ocultar aquilo que ainda lhe será revelado.
Do ponto de vista cristão, isso cria
um grave problema de consciência.
A lealdade do cristão pertence
primeiramente a Deus e à sua Palavra:
“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.” (Atos 5:29)
Nenhuma instituição humana deveria
receber do cristão um compromisso antecipado e irrestrito que possa entrar em
conflito com sua consciência diante de Deus.
2. Jesus e a questão dos juramentos
No Sermão do Monte, Jesus ensinou:
“Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.” (Mateus 5:33–37)
Observe a mudança de ênfase.
No Antigo Testamento, a preocupação
estava especialmente em impedir o falso juramento e exigir o cumprimento
daquilo que havia sido jurado. Jesus conduz seus discípulos a uma ética em que
a palavra do cristão deve possuir credibilidade sem depender de fórmulas
solenes.
O discípulo de
Cristo deve ser tão verdadeiro que seu “sim” seja sim e seu “não” seja não.
3. Tiago repete expressamente o ensino de Jesus
Tiago praticamente reproduz a
orientação de Cristo:
“Acima de tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro voto; antes, seja o vosso sim sim, e o vosso não não, para não cairdes em juízo.” (Tiago 5:12)
A expressão “acima de tudo” demonstra
a seriedade da advertência.
O cristão não deveria precisar
acrescentar à sua palavra fórmulas que invoquem realidades sagradas para
garantir que está falando a verdade.
E isso torna particularmente
problemática uma cerimônia religiosa ou iniciática na qual alguém, diante de um
altar, invoca Deus como testemunha de uma obrigação de segredo.
4. Mas o Antigo Testamento permitia juramentos?
Sim. E esse fato precisa ser
reconhecido para que nossa argumentação seja biblicamente séria.
A própria Lei dizia:
“Ao SENHOR, teu Deus, temerás, a ele servirás, e, pelo seu nome, jurarás.” (Deuteronômio 6:13)
Também encontramos:
“Se alguém pecar contra o seu próximo e lhe for exigido que jure…” (1 Reis 8:31)
E ainda:
“O SENHOR, teu Deus, temerás, a ele servirás, a ele te chegarás e, pelo seu nome, jurarás.” (Deuteronômio 10:20)
Portanto, seria incorreto afirmar
simplesmente que todo juramento foi sempre considerado pecado nas Escrituras.
Na antiga aliança, juramentos solenes
podiam funcionar como confirmação de uma declaração ou compromisso, colocando
Deus como testemunha da veracidade do que estava sendo afirmado.
O problema era especialmente o juramento falso:
“Nem jurareis falso
pelo meu nome, pois profanaríeis o nome do vosso Deus. Eu sou o SENHOR.”
(Levítico 19:12)
5. O Novo Testamento leva o discípulo a um padrão superior
Quando chegamos ao ensino de Cristo,
entretanto, encontramos o princípio regulador da vida do discípulo:
“Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não.” (Mateus 5:37)
Cristo confrontava uma cultura
religiosa que havia desenvolvido maneiras de classificar juramentos, como se
determinadas fórmulas fossem mais obrigatórias que outras. Isso aparece
claramente em Mateus 23:16–22, quando Jesus denuncia os escribas e fariseus que
faziam distinções casuísticas entre jurar pelo santuário, pelo ouro do
santuário, pelo altar e pela oferta.
Jesus combate essa manipulação
religiosa da verdade.
O cristão não deve precisar construir
uma hierarquia de palavras: uma palavra comum que talvez possa ser quebrada e
outra, acompanhada de juramento, que obrigatoriamente precise ser cumprida.
Para o cristão,
toda palavra deve ser verdadeira.
6. Isso significa que absolutamente todo tipo de juramento é proibido?
Aqui precisamos fazer uma distinção
importante.
Entre os próprios cristãos existem
duas interpretações históricas de Mateus 5:34 e Tiago 5:12. Alguns entendem
esses textos como uma proibição absoluta de qualquer juramento. Outros entendem
que Jesus está condenando especialmente juramentos voluntários, imprudentes,
manipuladores e religiosos, admitindo situações excepcionais de testemunho
solene diante de autoridades.
Essa segunda interpretação observa,
por exemplo, que Paulo emprega expressões como:
“Eu, porém, por minha vida, tomo a Deus por testemunha…” (2 Coríntios 1:23)
E Hebreus menciona o próprio
juramento como confirmação:
“Pois os homens juram pelo que lhes é superior, e o juramento, servindo de garantia, põe fim a toda contestação.” (Hebreus 6:16)
Essa discussão precisa ser
reconhecida.
Porém, mesmo adotando a interpretação cristã mais permissiva acerca de juramentos solenes, o problema do juramento maçônico permanece.
Por quê?
Porque não estamos tratando
simplesmente de alguém que, diante de um tribunal, afirma solenemente que
falará a verdade sobre fatos que conhece.
Estamos tratando de um indivíduo que assume voluntariamente uma obrigação iniciática de segredo sobre conhecimentos que ainda não possui.
São situações completamente
diferentes.
7. O grande problema: jurar antes de conhecer
Este talvez seja o aspecto mais
preocupante de toda a questão.
Imagine alguém dizendo:
“Eu prometo solenemente diante de Deus que guardarei aquilo que você vai me contar depois.”
A pergunta natural seria:
“Mas o que você vai me contar?”
E a resposta:
“Primeiro comprometa-se; depois você saberá.”
É justamente aqui que o cristão
precisa ser extremamente cauteloso.
Paulo ensina:
“Julgai todas as coisas, retende o que é bom.” (1 Tessalonicenses 5:21)
E João afirma:
“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus.” (1 João 4:1)
O método bíblico é examinar e depois aceitar.
Não é aceitar primeiro e examinar
depois.
A fé cristã não entrega a consciência
antecipadamente a uma organização humana.
8. A consciência do cristão não pode ser hipotecada
Paulo escreveu:
“Porque fostes comprados por preço.” (1 Coríntios 6:20)
E novamente:
“Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens.” (1 Coríntios 7:23)
Existe aqui um princípio fundamental:
nenhuma organização, fraternidade ou instituição possui autoridade absoluta
sobre a consciência do cristão.
Nossa fidelidade suprema pertence a
Cristo.
Se uma organização exige que eu
prometa previamente esconder aquilo que posteriormente ela decidir me revelar,
estou assumindo uma obrigação antes de poder avaliar plenamente seu conteúdo à
luz das Escrituras.
Isso inverte a ordem bíblica.
Primeiro devo perguntar:
Isso é verdadeiro? Isso é santo? Isso glorifica a Cristo? Está de acordo com a Palavra de Deus?
Somente depois posso decidir se devo
participar.
9. Nem todo segredo é pecado
Também precisamos evitar exageros.
A Bíblia não ensina que toda
confidencialidade seja pecaminosa. Existem informações privadas,
aconselhamentos pastorais, assuntos familiares e confidências legítimas que
devem ser preservados.
Provérbios afirma:
“O mexeriqueiro descobre o segredo, mas o fiel de espírito o encobre.” (Provérbios 11:13)
Portanto, o problema não é simplesmente guardar segredo.
O problema está em invocar Deus numa obrigação iniciática e comprometer previamente a consciência com segredos cujo conteúdo ainda não foi conhecido e avaliado biblicamente.
Essa distinção é fundamental.
10. O cristão deve andar na luz
Jesus declarou:
“Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto.” (João 18:20)
O cristianismo possui mistérios no
sentido bíblico — verdades anteriormente ocultas e posteriormente reveladas por
Deus —, mas o Evangelho não é uma sociedade iniciática na qual verdades
essenciais são reservadas a uma elite que sobe progressivamente por graus
secretos.
Paulo declarou:
“Nada me esquivei de vos anunciar que fosse proveitoso.” (Atos 20:20)
E acrescentou:
“Jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus.” (Atos 20:27)
A verdade cristã deve ser proclamada.
11. Uma pergunta ao cristão maçom
Ao cristão que pertence à Maçonaria,
deixamos uma pergunta sincera:
Por que um discípulo de Jesus precisa assumir diante de Deus uma obrigação de ocultar ensinamentos que ainda não conhece?
Se aquilo que será ensinado é
verdadeiro e moralmente correto, por que exigir primeiro um compromisso de
silêncio?
E se posteriormente alguma coisa
entrar em conflito com as Escrituras, qual obrigação prevalecerá?
Para o cristão, a resposta somente
pode ser uma:
“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.” (Atos 5:29)
Nenhum juramento, promessa,
fraternidade ou compromisso humano pode ocupar o lugar da autoridade de Cristo.
CONCLUSÃO
O problema dos juramentos maçônicos
vai muito além da palavra “jurar”.
O Antigo Testamento admitiu juramentos solenes e condenou severamente o perjúrio. Jesus, entretanto, conduziu seus discípulos à simplicidade e integridade da palavra: “Seja o vosso sim sim, e o vosso não não.” Tiago repetiu a mesma advertência.
Mesmo entre cristãos que entendem existir espaço excepcional para um juramento judicial ou solene, permanece uma dificuldade específica e séria no sistema iniciático maçônico: o candidato compromete sua palavra diante de Deus com a preservação de informações que ainda receberá no futuro.
O cristão não deve entregar sua
consciência antecipadamente a nenhuma instituição.
Nossa consciência pertence a Cristo.
Nossa fidelidade pertence a Cristo.
Nossa palavra deve estar submetida a
Cristo.
E qualquer compromisso humano precisa
ser previamente examinado à luz da Palavra de Deus.
“Examinai tudo.
Retende o bem.” (1 Tessalonicenses 5:21)
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