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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Como a terra foi povoada se Adão e Eva só tiveram Caim e Abel


Existe uma pergunta que já afetou a fé de muita gente e o mais impressionante é que ela não vem de um livro de filosofia alemã, nem de um laboratório de genética. Essa pergunta vem muitas vezes de uma criança na escola dominical, na salinha da escola dominical.

Criança levanta a mão e pergunta, diz assim: "Professor ou professora, se no começo só existiam Adão, Eva, Caim e Abel e Caim matou Abel. Com quem Caim se casou? De onde saiu, afinal de contas, a esposa dele? Como a terra foi povoada. E aí acontece uma cena que não é rara, que o adulto responsável ali fica gaguejando, não sabe o que responder e diz: "Isso é mistério de Deus". e muda de assunto.

Então, presta atenção no que eu vou lhe dizer, nessas situações, não é a pergunta que abala a criança, é o silêncio do adulto. É a descoberta que a criança pensa ter de que o cristianismo na cabeça dele, né, não tem resposta. Nós temos uma notícia bem melhor do que você pode imaginar, né? Você sabe que o cristianismo tem resposta, tem resposta Bíblica, resposta histórica, resposta filosófica e resposta científica. E a resposta é tão

simples que quando você entender vai ficar surpreso de nunca ter visto essa resposta antes, porque ela está inclusive escrita com todas as letras no próprio capítulo que a pessoa acha que foi o que criou o problema.

Então vamos a isso. Mas antes de responder, eu quero fazer aquilo que não é muito feito, né? Principalmente na internet. Mas eu quero apresentar aqui a objeção que é feita essa questão. Vamos apresentar a objeção do jeito mais forte possível. Não é uma versão fraca, uma versão de piada, não. A versão forte mesmo, a versão séria, aquela do cético (quem não acredita em nada ou tende a duvidar de tudo), inteligente, honesto, que diz assim:

- Primeiro, Gênesis 4 diz que Caim depois de matar Abel teve medo e ele diz uma frase estranhíssima lá tá em Gênesis 4:14, diz: "Qualquer um que me encontrar me matará". Ora, encontrar quem, né? Se só havia três pessoas vivas no planeta, Adão, Eva e ele, Caim. Já que Abel, Abel foi morto por ele. Se havia essas três, de quem Caim tinha medo? Dos pais idosos. Segundo Gênesis 4:16 diz que Caim saiu e habitou na terra de Node. Então, terra de Node é o nome de um lugar, né? Um lugar que tem nome e, portanto, é como uma região habitada, um território conhecido.

- Segundo, Gênesis 4:17 diz que Caim conheceu a sua mulher. Bom, a mulher aparece do nada, sem apresentação, sem nome, sem genealogia. Ela simplesmente existe.

- E terceiro, e o texto continua dizendo que Caim edificou uma cidade, uma cidade, né? Como é isso?

Porque ele edificou, ele não edificou uma cabana, edificou uma cidade, o que pressupõe população de visão, de trabalho, muros, pressupõe alguém para morar dentro. E o cético aí conclui, tá vendo? O próprio texto trai o mito.

Gênesis pressupõe a humanidade inteira já existindo e a história de Adão e Eva como pais de todos é uma costura mal feita de tradições antigas diferentes. É o que o cético diz. Diz, diz assim: "Tá vendo? Isso não é história, isso é um folclore, enfim, é todas aquelas críticas que são feitas. Eu preciso dizer com honestidade intelectual que essa objeção, ela não é simples, não é boba, embora a resposta esteja lá, mas é uma objeção importante. Ela, porque ela olha para texto, ela presta atenção nos detalhes que às vezes o leitor devoto costuma até pular e faz uma pergunta legítima, né? E é, devemos respeitar quem faz as perguntem, as pessoas que fazem perguntas legítimas.

O problema é que essa objeção, ela comete um erro elementar, um erro que na filosofia tem nome. É sobre isso que nós devemos conversar agora.

O que eu quero dizer para vocês, e se eu pudesse resumir era que a Terra foi povoada exatamente como Gênesis diz que foi povoada pela descendência numerosa de Adão e Eva ao longo de séculos. E a pergunta, de onde veio a mulher de Caim? Só parece sem resposta para quem confunde uma genealogia teológica com senso demográfico. Então, veja bem essa distinção aí, guarde essa distinção, porque ela vai servir para entendermos o que eu quero dizer aqui.

Mas Gênesis 4 não é um recenciamento, é uma linhagem. E linhagem e senso são gêneros literários diferentes, com propósitos diferentes. Vamos pôr parte.

Primeiro o texto, né? Vamos ver o texto. Depois eu vou fazer uma abordagem sobre outras perspectivas e mostrar que no final às vezes essa pergunta mais do que sobre demografia (Ciência responsável pelo estudo das populações humanas) é sobre o nosso coração.

Vamos ver o que o texto diz, o que é que o texto responde. Vamos ver olhando para o texto. E aqui eu vou pedir sua atenção máxima porque a resposta está a poucos versículos do problema. Gênesis 5:4 que as Escrituras dizem: "E foram os dias que Adão viveu depois que gerou “Sete”, 800 anos e gerou filhos e filhas." Então vamos lá. Filhos e filhas no plural. Então 800 anos gerando filhos e filhas depois de Sete e Sete nasce depois da morte de Abel. Ou seja, a Bíblia responde principalmente a pergunta de onde vieram as outras pessoas. Ela responde de Adão e Eva, muitos ao longo dos séculos. E note o detalhe cronológico que é decisivo. Gênesis 5:3 diz “E Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua própria semelhança, segundo a sua imagem, e chamou seu nome Sete. (BKJ). Adão tinha 130 anos quando gerou “Sete”. E some isso com os 800 de Gênesis 5:4, “E os dias de Adão, depois de ter gerado Sete foram oitocentos anos, e gerou filhos e filhas.” (BKJ). Você chega aos 930 anos de Gênesis 5:5 “E todos os dias que Adão viveu foram novecentos e trinta anos, e morreu.” (BKJ).

Isso significa que no momento em que Caim mata Abel, podem já ter se passado décadas, talvez mais de um século até de vida humana aqui na Terra. Tempo mais do que suficiente para que dezenas de irmãos, irmãs, sobrinhos e netos de Adão estivessem vivos. Faça matemática aí comigo, né, que você vai ver isso. É isso.

Se você tem um casal fértil por séculos e os filhos desse casal também são férteis por séculos, o crescimento não é linear, ele é exponencial (Refere a algo que tem expoente, relevância ou crescimento rápido). Uma família tendo, vamos dizer, oito filhos em média por geração e as gerações se sobrepondo, porque ninguém morreu 70, 80 anos ali, você chega facilmente a milhares de pessoas em poucos séculos. E é exatamente isso que Gênesis 4 descreve uma sociedade com cidades, com pastoreio, com metalurgia, com música. Vamos lê Gênesis 4:20 a 22 “ 20 - Ada deu à luz um filho chamado Jabal, que foi o antepassado dos que criam rebanhos e vivem em tendas. 21 - Jabal tinha um irmão chamado Jubal, antepassado de todos os músicos que tocam harpa e flauta. 22 - Zilá também deu à luz um filho, chamado Tubalcaim, artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro; a irmã de Tubalcaim foi Naamá. 23 - Então Lameque vangloriou-se diante de suas esposas: “Ada e Zilá, ouvi-me! Vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a declarar-vos: Matei um homem por causa de ferimentos que me causara; e uma criança porque me ofendeu. (BKJ).

Então, o medo de Caim em Gênesis 4:14 não é irracional, é perfeitamente racional. Caim tem medo dos seus próprios parentes, dos irmãos e sobrinhos de Abel, que, aliás, são seus próprios irmãos e sobrinhos dele mesmo, né? Os irmãos de Caim, Caim Abel, dos dois. Então, é medo de vingança de sangue, o mesmo mecanismo que aparece depois em toda a legislação de Israel sobre o vingador do sangue lá em Números 35:19.

Então, Caim sabe exatamente o que ele fez e sabe exatamente o que virá atrás dele. E a mulher de Caim aparece em apresentação em Gênesis 4:17 por várias razões, entre as quais as mais simples de todas. Porque para o autor de Gênesis, ela não precisava de apresentação. Todo leitor antigo sabia que ela era uma descendente de Adão. Era óbvio isso. E o texto não explica o óbvio ali.

Agora vamos ao segundo pilar e esse é teologicamente bem mais pesado.

Em Gênesis 3:20 diz que Adão chamou sua mulher de Eva porque ela era a mãe de todos os viventes. Todos. Não fala de alguns, não fala de da mãe de uma tribo, entre outros, não, de todos. No Novo Testamento, Paulo falando lá no Areópago em Atenas, diante de filósofos históricos e epicureus, ele diz em Atos 17:26 que Deus de uma só fez toda a raça humana para habitar toda a face da Terra, de uma só. Então, essa é afirmação sobre a unidade biológica. Unidade moral do gênero humano. Em sua primeira epístola aos Coríntios 15:45, Paulo chama Adão de o primeiro homem em contraste com Cristo, que é o último Adão. Se Adão não é o primeiro homem, o primeiro Adão, o paralelo de Paulo desmonta totalmente, aí fica desqualificado. Em Romanos 5:12, o apóstolo Paulo apresenta ali a espinha dorsal do evangelho. Diz que por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte. Então, a doutrina do pecado original, a doutrina da redenção em Cristo, depende estruturalmente de uma unidade na humanidade ou se você prefere de uma humanidade unida em uma cabeça.

E aqui que eu quero ser muito claro, né? Porque tem muita gente que tenta resolver o problema da mulher de Caim inventando uma raça pré-adâmica. Gente que já existia ou já teria existido antes de Adão ali fora do Éden. Então isso aí é para ser absolutamente rejeitado, rejeitado com veemência, rejeitado com firmeza, porque não é apenas uma leitura frouxa, não muito segura do texto, é até uma porta aberta para o racismo teológico, por exemplo, que historicamente foi usado para dizer que existem seres humanos de segunda classe, os não adâmicos. Então, foi assim que se justificou Babares e a doutrina Bíblica é o oposto. Uma só humanidade, um só sangue, uma só queda, um só redentor. Portanto, a resposta Bíblica é simples e extremamente direta. As outras pessoas eram parentes.

Os primeiros casamentos foram entre irmãos ou irmãs ou entre primos ou entre sobrinhos, enfim. E eu já sei o que você tá pensando agora, né? Você tá pensando, pera aí, isso é incesto (Relacionamento sexual ou afetivo entre parentes). Bom, nós vamos enfrentar essa objeção e vamos enfrentar de frente a objeção, sem rodeios, mas à frente, porque antes eu quero falar com você aqui uma coisa que vai ser bastante importante aqui. Quero dizer para você que muito que eu estou trazendo aqui está historicamente estabelecido. Não é invenção da modernidade, não é que não tem a resposta, tem aí 2000 anos. Isso é importante porque estou dizendo isso porque existe uma lenda urbana no ateísmo da internet, a lenda de que os cristãos nunca perceberam esse problema e só agora coados pela ciência inventaram desculpas. Isso é historicamente falso, né? Nós fomos aos documentos, nós vamos ver as primeiras testemunhas documentais, vamos dizer, Flávio Josephos, o historiador judeu do primeiro século nas suas antiguidades judaicas, lá no livro primeiro, no capítulo dois, ele descreve sobre Adão e Eva. Ele diz que eles tiveram também filhas. E mais adiante diz que Adão teve de fato muitos outros filhos e que seria tedioso nomeá-los a todos. Está lá nas antiguidades de Josephos.

Na edição clássica de William Winston, há uma nota que registra uma tradição antiga, segundo a qual Adão teria tido 33 filhos e 23 filhas. Isso aí é uma tradição antiga, não está nas Escrituras, tá bom? Não é um dado revelado, pessoal. É tradição, não Escritura. E a própria nota lá do livro apresenta esse número dessa forma, tá bom? Mas o ponto histórico aqui é irrefutável. No primeiro século, um judeu culto já lia Gênesis exatamente do jeito que eu acabei de lhe explicar. Uma segunda testemunha disso é o livro dos jubileus, o texto judaico do segundo século antes de Cristo, que não é canônico para nós, mas é historicamente bastante valioso, valiosíssimo, porque mostra como os judeus antigos liam Gênesis. Então, em Jubileus 4, a narrativa que Eva deu a luz Caim, depois Abel e depois uma filha Auan que depois nasceu Sete, depois outra filha, Azura. E diz literalmente: "E Caim tomou a sua irmã, por esposa e ela lhe deu Enoque. "Esse lá no livro do Jubileus 4, capítulo 4. Então, repare no que isso significa.

Então, dois séculos antes de Cristo, a resposta à pergunta já estava dada com nome próprio e tudo. Não é apologética de emergência que nós estamos fazendo, é uma leitura antiga e pacífica do texto. Uma terceira testemunha aqui, e essa é mais filosoficamente refinada, digamos assim, que é Santo Agostinho no livro “A cidade de Deus”, livro 15, no capítulo 16. O capítulo 16 se chama sim, se chama literalmente do casamento entre parentes consanguíneos, quanto ao qual a lei presente não podia obrigar os homens das primeiras eras. O título é mais ou menos esse. Então o que Agostinho escreve lá é que como a raça humana precisava se multiplicar e não havia seres humanos além dos nascidos daqueles dois, os homens tomaram suas irmãs por esposas um ato tão certamente ditado pela necessidade daqueles dias. Os dias antigos, quanto depois condenado pelas proibições da religião. Então, Agostinho, ele traz esse argumento e ele vai além, ele vai além com uma sofisticação que impressiona até hoje. Agostinho observa que naquela situação Adão era simultaneamente pai e sogro dos seus filhos. Eva era simultaneamente mãe e sogra e a irmã era simultaneamente irmã e esposa. E que isso é uma pobreza relacional, uma concentração de vínculos que Deus depois dispersa para que o afeto humano se espalhe por mais pessoas. Por isso, diz ele, quando a população se tornou abundante, tais uniões ali deixaram de ser necessárias e deixando de ser necessárias, tornaram-se abomináveis. É ao argumento de Agostinho, que Deus muda isso para que o afeto humano se expanda. Isso é um raciocínio moral de altíssimo nível, né, no século V. Então, Agostinho está distinguindo entre o que é intrinsecamente mal e o que é mal em razão de uma ordem instituída depois, dentro de uma história. E é justamente essa distinção que a maioria dos debates de internet não consegue fazer.

Eu quero aqui desmontar essas objeções filosoficamente, né, que são por meio de desmontar aqui três erros que sustentam essa objeção:

O erro número um, que é o argumento a partir do silêncio. O cético diz: "O texto não menciona irmãs, logo não havia irmãs". Esse é o clássico argumento ex silêncio é uma falácia quando a de que quando o silêncio é esperado pelo gênero do documento. Então, pense assim, se você lê uma certidão de nascimento, ela não menciona os amigos do bebê, você não pode concluir que o bebê não terá amigos. Você pode concluir, NÃO. Você entende que aquele documento tem uma função e só registra o que serve aquela função. Então, Gênesis 4:5 são fórmulas genealógicas hebraicas e genealogias antigas do Oriente próximo registravam a linha relevante para o propósito do texto. Aqui a linha da promessa de Adão a Sete, a Noé, a Abraão, a Davi e no Novo Testamento a Cristo.

Então, filhas quase nunca eram nomeadas, salvo quando teologicamente fosse necessário fazer isso. Então, isso não é o machismo do texto, é a convenção documental de um gênero. Exigir de uma genealogia hebraica a completude de um senso do IBGE é anacronismo. E anacronismo é um dos vícios interpretativos mais graves que existem.

Erro número dois, confundir não explicado com contraditório. O texto não explica de onde vem a mulher de Caim. Isso é verdade, mas não explicado e impossível são categorias completamente diferentes. Uma narrativa é contraditória quando afirma há e não há. Gênesis não faz isso. Gênesis afirma há, que é o seguinte: Adão e Eva geraram muitos filhos e filhas. Tá lá em Gênesis 5:4. e depois pressupõe a sem repetir. Isso não é contradição, é uma economia narrativa. Ele afirma no começo, depois pressupõe aquilo sem precisar repetir. Todo bom narrador pressupõe, faz isso.

E o erro número três e o mais interessante, a absolutização do tabu. Aqui a coisa fica filosoficamente séria, viu? Então aqui acompanhe comigo, porque existem dois tipos de erro moral. Ao mal em si, que é o mal em si mesmo, errado sempre, em toda a cultura, em todo tempo. Por exemplo, torturar uma criança por diversão, por prazer, é um exemplo de um mal em qualquer situação. Existe um outro tipo de mal que não é um mal em si, mas é decorrente de uma convenção que é o mal prohibitum, o malum prohibitum, se que em latim, que é o seguinte, é aquilo que é errado porque foi proibido dentro de uma ordem legítima e proibido por boas razões. Por exemplo, dirigir na contramão é um mal, mas não é um mal em si. Não é um mal em si. Você dirigir na esquerda da avenida é um mal, mas não é um mal em si. Tanto que na Inglaterra é o contrário, é, proibido dirigir na direita. Agora, tem a pergunta técnica: em que categoria está o casamento entre irmãos?

Bom, vamos responder juridicamente.

A proibição Bíblica explícita do casamento entre os parentes próximos aparece em Levítico 18, verso 9. É lá que aparece, que proíbe a relação com irmã. Isso é dado ao povo de Israel no Sinai, milhares de anos depois de Adão. Antes disso, não havia essa lei positivada. E a Escritura mostra isso com naturalidade histórica. Abraão diz sobre Sara em Gênesis 20:12, tá lembrado? Diz: "Ela é realmente minha irmã, filha de meu pai, mas não da minha mãe." Então, Abraão era casado, na realidade com sua meia irmã. E Abraão é o pai da fé. O texto não esconde e não escandaliza porque Levítico ainda não havia sido dado. Depois de Levítico, essa mesma união passa a ser proibida em Israel. Então repare no que isso revela sobre a ordem moral Bíblica, né? Não estou  falando de relativismo, há absolutos morais e eu sou assim o primeiro a dizer que há absolutos morais. Isso aí eu sou o primeiro a negar o relativismo. E o que estamos dizendo aqui é que há ordens instituídas para proteger o ser humano dentro de condições concretas que mudam. Esses não são os males em si, mas os males decorrentes da ordem. Como eu falei, eu dei o exemplo de dirigir na mão errada da rua na contramão. Então, a proibição de Levítico protege a família, protege a criança, como veremos agora, e protege o corpo. E é exatamente por isso que a resposta de Agostinho é tão elegante. No início, a união entre irmãos era necessária. Deixando de ser necessária, tornou-se ilegítima e abominável. A necessidade não torna algo bom para sempre. Ela apenas explica porque naquele momento único e repetível da história não havia alternativa.

Então vamos agora pra objeção que você tá esperando desde o começo. Pensa que eu ia me esquecer.

Objeção do incesto diz. Isso é incesto. Incesto errado. Gera defeito genético.

Bom, essa é a objeção mais forte contra tudo que eu disse e ela não é textual, é biológica. Ela diz: "casamento entre irmãos, era filhos com deformidade." A ciência prova isso.

Logo, a humanidade não pode ter começado assim. Tem como responder isso em três momentos, vamos dizer assim, ou três movimentos assim:

Primeiro movimento, para responder isso, você dizer, que você deve entenda por que a consanguinidade é perigosa. Por que a consanguinidade é perigosa? Ela não é perigosa por magia, ela é perigosa por um mecanismo específico, a chamada carga mutacional. Então, cada um de nós carrega mutações deletérias (venenosa, danosa, nociva) recessivas, que são erros herdados no genoma. Recessivo significa que o defeito só se manifesta quando a pessoa recebe a mesma cópia defeituosa do pai e da mãe. Quando dois parentes próximos têm filhos, a chance de o filho receber duas cópias do mesmo erro sobe muito, porque os dois herdaram os mesmos erros do mesmo ancestral. Ou seja, o risco da consanguinidade é diretamente proporcional à quantidade de mutações acumuladas na linhagem. Esse aí é um dado.

Segundo movimento, aplique isso ao primeiro casal, primeiro movimento. Segundo, vamos aplicar isso ao primeiro casal. Se a humanidade começa com um casal criado íntegro, sem carga mutacional acumulada, então o mecanismo que produz o dano simplesmente não está lá no início. Não há um estoque de erros recessivos compartilhados para se somar com passadas gerações, inclusive em decorrência da queda, as mutações vão se acumulando e aí sim a consanguinidade se torna progressivamente perigosa. E veja o que acontece na própria Escritura. Isso é realmente impressionante. A proibição legal aparece em Levítico, exatamente no ponto da história em que a carga mutacional já teria se acumulado o suficiente para tornar essas uniões nocivas. A lei chega quando o perigo chega. Não estou dizendo que Levítico é um manual de genética, não é. Estou dizendo que a ordem cronológica das proibições é coerente com o que a genética descreve. E isso é um dado que merece um, pelo menos, um silêncio respeitoso do cético apressado.

O terceiro movimento, que é o limite assim honesto do argumento, eu não vou aqui falar o que não está, né, nas Escrituras. Nós temos que ter é honestidade intelectual. Então, não tem, é verdade, como nós reconstruirmos o laboratório do em laboratório, o genoma do primeiro casal. Ninguém pode. Esse argumento, portanto, não é uma demonstração empírica, é uma inferência a partir de premissas teológicas. Então, criação íntegra, degeneração progressiva após a queda. Mas note o que isso faz com objeção do cético. Ele afirmou uma impossibilidade. Não pode ter começado assim.

Para provar impossibilidade, ele precisa mostrar que a altíssima carga mutacional é necessária em qualquer população inicial. E ele não pode mostrar isso, porque a carga mutacional é um fato histórico e acumulado, não uma necessidade lógica. Portanto, a objeção não derruba a tese, ela apenas revela o próprio pressuposto de que o passado remoto tem que ser exatamente igual ao presente. E para fechar aqui, se por qualquer razão você não acha essa resposta suficiente, note que ela nem é necessária para o argumento central do nosso estudo,está bom?

A pergunta era: Como a terra foi povoada, se só havia Caim e Abel? E a resposta é: não havia só Caim e Abel, havia filhos e filhas. Gênesis 5:4. Essa é a resposta que se sustenta sozinha, que eu estou aprofundando agora. Eu quero elevar ainda mais isso porque é uma dimensão que as pessoas não tocam tanto nisso, quase ninguém toca, que é o seguinte: a grande literatura ocidental nunca se interessou pela demografia de Gênesis 4. Ela se interessou por outra coisa. E é aí que está o verdadeiro peso do capítulo.

Lord Byron escreveu em 1821 um drama chamado “Caim”, um mistério. E Baryon não pergunta quantas pessoas havia na terra. Ele coloca Caim diante de Lúcifer e faz a pergunta que arde. Por que sofrer? Porque a morte? Porque Deus aceitou o cordeiro de Abel e rejeitou o meu trabalho? Então, o Caim de Byron é um homem moderno em rebelião, ressentido, orgulhoso e, no fundo, inconsolável. John Steinbeck, um escritor cujas obras eu lia muito na minha adolescência, um escritor americano, ele disse, construiu o chamado a leste do Éden, que é inteiramente sobre Gênesis 4. E o coração do romance está na palavra hebraica Tim Shell, em Gênesis 4:7, quando Deus diz a Caim que ele pode dominar o pecado.

Então, toda a obra gira em torno disso. Você não está condenado ao seu ressentimento. Você pode dominá-lo. A liberdade. Então, Miguel de Unamuno escreveu Abel Sanchez e transformou a história de uma anatomia da inveja, mostrando que a inveja não quer ter o que o outro tem. Quer que o outro não tenha. Não é que a inveja não quer, a inveja não faz com que você não queira ter o que o outro tem. Ela faz com que você queira que o outro não tenha. E repare no que a literatura enxergou, né? Às vezes o debate na internet não enxerga.

Então, Gênesis 4 não é um capítulo sobre população, é um capítulo sobre o que acontece com o coração humano fora do Éden. É o capítulo em que a violência entra na família. É o capítulo em que Deus faz a Caim a pergunta mais terrível da Bíblia. Onde está Abel, teu irmão? E Caim responde com a frase que é o retrato perfeito da modernidade. Sou eu o guardador do meu irmão? Tá lá em Gênesis 4:9. Então, enquanto nós discutimos com quem Caim se casou, o texto está discutindo porque Caim matou.

E essa, meu amigo, é a pergunta que ainda mata gente até hoje. Até hoje.

Vou terminar falando aqui com três tipos de pessoas:

Primeiro é você que perguntou isso com sinceridade e ficou sem resposta na igreja. Eu quero pedir a você, você veja, entenda que você pode perguntar e sua pergunta é boa. O problema nunca foi a sua pergunta, foi às vezes o despreparo de algumas pessoas em respondê-la. Uma fé que não pode ser examinada não é fé cristã, pessoal, é superstição. O Deus da Bíblia nunca teve medo de suas perguntas, viu? Ele convidou Jó a perguntar, deixou Tomé tocar as feridas, discutiu com Abraão sobre Sodoma. Então essa é a primeira pessoa.

Segunda é você que usou essa pergunta como escudo, que já a repetiu em discussão, sabendo que ela derruba o outro. Eu digo a você com respeito, né?

Agora você conhece a resposta e ela tem 2.000 anos de idade. Não fui eu que criei, é a resposta antiga. Então se você continuar usando a objeção, já não será por falta de informação, tá bom? E aí a questão deixa de ser intelectual e passa a ser outra e você sabe qual.

E a terceira pessoa é você que se identificou com Caim. Não porque matou alguém, mas porque conhece aquele fogo por dentro, a inveja do irmão, a raiva do que Deus deu ao outro, o ressentimento que você esconde atrás de uma oração educada. O ressentimento às vezes é colocado atrás de uma oração educada.

Para você, vou aqui citar o versículo mais esperançoso desse capítulo aí, que é Gênesis 4:7.  “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, porém, procederes mal, o pecado jaz à porta e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” O pecado está à porta, mas você pode dominá-lo. E há mais. Hebreus 12:24 diz que nós chegamos ao sangue da aspersão que fala melhor do que o de Abel. O sangue de Abel clamava da terra por justiça. O sangue de Cristo clama por perdão.

O primeiro sangue derramado na história humana pedia vingança, mas o sangue derramado no Calvário oferece reconciliação, inclusive a Caim, inclusive a você, inclusive a todos nós.

A terra foi povoada por filhos e filhas de Adão. Toda ela, todos nós, uma família só, um só sangue. Atos 17:26. Tá bom? O que significa, entre outras coisas, que o racismo é uma heresia antropológica e não apenas um crime. E essa família inteira ferida desde o primeiro irmão morto, tem um só redentor.

Por: Tassos Lycurgo


 

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