Desesperada por não encontrar nada nos Evangelhos que lhe
pudesse, ao menos de longe, fornecer arremedo de argumento, no intuito de
corroborar o seu raciocínio, a dogmática católica apresenta esta passagem
bíblica extraída de Paulo:
“Assim, pois, Irmãos, permanecei firmes e guardai as
tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa”
(2 Tes. 2:15).
“Os Apóstolos”, conclui, “não nos transmitiram tudo por
escrito; uma grande parte do seu ensino foi oral que nos chegou pela Tradição
através dos séculos”.
Ao objetivo católico nesta Escritura saltam à vista os
embargos. Vejamos:
O que significa o vocábulo “Tradição”?
O significado do vocábulo “tradições” nesse texto não é sinônimo da Tradição no conceito católico. Lá no original grego, o termo é
paradoseis que tem o significado de doutrina ou ensinamentos para o caso.Paradoseis é o conjunto das doutrinas ou o depósito
exposto por Paulo aos fiéis. Este depósito que ele não recebeu de nenhum dos
Doze e de ninguém, mas diretamente de Jesus Cristo (Gl. 1.9,11,12).
Ele não o recebeu de nenhum dos Doze e de ninguém, mas
diretamente de Jesus Cristo(Gálatas 1.9, 11-12).
Paulo, portanto, depois de prevenir os tessalonicenses contra os deturpadores
do Evangelho, inculca-lhes a necessidade de se manterem firmes nas doutrinas
por ele ensinadas através também das suas pregações.
Ainda mais. O próprio texto ressalta a sintonia entre a
pregação e a escrita das doutrinas ensinadas pelo mesmo Apóstolo. De maneira
alguma ele sugere apoio a ensinamentos alheios ou diversos das Escrituras.
É de se levar em conta, outrossim, que esta Segunda Carta
aos Tessalonicenses é o segundo documento de Paulo, escrito logo após a
Primeira Carta aos mesmos destinatários, datada do ano 50 ou 51. É evidente,
pois, que, no afã de preveni-los da “operação do erro” 2Tessalonicenses 2.11, o
Apóstolo se reporte às doutrinas que oralmente ele havia ensinado quando de sua
atribulada estada em Tessalônica porque “os judeus, porém, movidos de inveja, trazendo
consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba, alvoroçaram
a cidade” (Atos 17.5).
Seu curto ministério nesta localidade, porém,
permitiu-lhe disputar numa sinagoga dos judeus “acerca das Escrituras”, pelo
que alguns deles creram e se organizaram em igreja (Atos 1 7.1-4; 1a e 2a
Tessalonicenses 1.1).
As cartas de Paulo contêm a mesma mensagem que ele
transmitira oralmente?
Ao se referir Paulo aos seus ensinamentos por palavra não
quer isto dizer que se constituíam eles em ensinamentos diferentes dos escritos
em suas cartas. Tanto assim que, desejando prevenir os crentes contra as
investidas de Satanás, adverte energicamente: “Caso alguém não preste
obediência à nossa palavra dada por esta epístola, notai-o; nem vos associeis
com ele, para que fique envergonhado” (2 Tessalonicenses 3.14).
Dos seus treze documentos, as duas pequenas Cartas à
Igreja em Tessalônica são os dois primeiros. Evidentemente que, ao se referir
às doutrinas que por palavra havia ensinado lá, não demonstra ser a Tradição
Oral uma Fonte de Revelação, como querem os teólogos católicos.
Acresce outra observação de máximo destaque. É que Paulo,
como Apóstolo, era órgão oficial, divinamente inspirado, da Revelação Divina
que durou até a morte de João, o Apóstolo. Por conseguinte, e não implicando
isto que sua pregação oral era diversa de sua pregação nas epístolas, pelo fato
de ser a pregação de Paulo instrumento da Revelação Divina aos homens, não se
há de concluir que outros gozem desta mesma missão e sua palavra também seja
inspirada e até quando expõem doutrinas contrárias às Escrituras.
O catolicismo aprecia sobremaneira retirar um versículo
do seu contexto e encaixá-lo a muque no cenário das suas heresias. E, como
sempre, desta vez também falhou o seu arrazoado.
Paulo ensinou Tradição oral a Timóteo?
Insiste, porém, a dogmática católica e. no apogeu de seus
estertores, vai buscar outro texto escriturístico no anseio de coonestar a sua
Tradição. E arroga. como defesa desta sua falida fonte de doutrinas, as
recomendações de Paulo a Timóteo:
“Sei em quem tenho crido e estou certo de que Ele é
poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia. Mantém o padrão das sãs
palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus.
Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2 Timóteo
1 .12-14).
Nesta perícope encontramos duas vezes mencionado o
vocábulo “depósito”. A primeira vez no versículo 12, onde significa a confiança
do Apóstolo em Deus, que não falta em Suas promessas. Todos os seus trabalhos,
todos os seus sofrimentos, culminados agora em sua prisão em Roma nas vésperas
da sua morte, se constituíram num riquíssimo depósito entregue nas mãos do
Senhor, como num maravilhoso relicário, de onde esplenderiam todos os seus
galardões, como de urna fonte inexaurível. A segunda, no verso 14. Para
qualquer leitor desprovido de preconceitos, esta passagem bíblica no panorama
das relações de Paulo com Timóteo salienta o cuidado especialíssimo do Apóstolo
em preservar o “depósito” (paratheke) isento de macular-se com as fábulas e
doutrinas vãs.
O Apóstolo teve de enfrentar aguerridas lutas contra os
“falsos irmãos” (Gálatas 2.4). os judaizantes que perturbavam os crentes com
palavras e transtornavam as suas almas (Atos 15.24) porque deturpavam a pureza
do Evangelho, imiscuindo-lhes doutrinas espúrias. Além, pois, de missionário
entre os gentios, Paulo teve de sustentar esta batalha imensa para o que contou
com a cooperação pronta e eficaz de Timóteo. do qual “davam bom testemunho os
irmãos” (Atos 16.2).Qual o significa do termo “depósito”?
O vocábulo grego paralheke empregado por Paulo é de alta
significação por ser, no seu tempo, um termo técnico da linguagem jurídica
entre os gregos. romanos e judeus. Paratheke (“depósito”) indicava um tesouro
valioso confiado pelo seu proprietário à guarda de um amigo de irrestrita
confiança. que se obrigava a guardá-lo) e a restitui-lo. não lhe sendo lícito,
ainda, utilizar-se dele em proveito pessoal ou na conformidade do seu
bel-prazer. Severas penas, outrossim, se impunham aos que violassem as normas
da absoluta fidelidade exigidas nesse caso do paratheke ou “depósito”.
Pois bem! Paulo, escrevendo ao seu caríssimo Timóteo,
exorta-o à fidelidade na guarda deste paraiheke divino, que é a doutrina do
Evangelho, não permitindo, em hipótese alguma, que fosse eivada de retoques,
desvios ou fábulas.
Certa ocasião, quando foi à Macedônia, Timóteo permaneceu
em Efeso para advertir alguns “que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem
com fábulas e genealogias sem fim” (1 Timóteo 1 .3-4).
Além de preservar o “bom depósito” ou paratheke, nesta emergência, competia a
Timóteo a habilidade de selecionar homens capazes e firmes na fé, aptos para
ensinar.
“Aplica-te à leitura, a exortação, ao ensino… Tem cuidado
de ti mesmo e da doutrina… O Timóteo, guarda o que te foi confiado, evitando os
falatórios inúteis e profanos e as contradições do saber, como falsamente lhe
chamam, pois alguns, professando-o, se desviaram da fé… Guarda o bom depósito,
mediante o Espírito Santo que habita em nós (lª Timóteo 4.l3, l6,2O,2l –
2ªTimóteo 1.14).
Lembra a Timóteo em sua Primeira Carta de que “nos
últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos
enganadores e a ensinos de demônios” (4.1); suplica-lhe que rejeite “as fábulas
profanas e de velhas caducas” (4.7); recomenda-Lhe que persistisse em ler
(4.13) e na Segunda Carta assemelha a Janes e a Jambres, que resistiram a
Moisés, os que resistem à verdade, sendo “homens de todo corrompidos na mente,
réprobos quanto à fé” (3.8) e agora. nas vésperas de sua morte em Roma, de onde
remetera esta Carta a Timóteo, concita-o: “Tu, porém, permanece naquilo que
aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde
a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação
pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o
ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na .Iustiça, a fim
de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa
obra” (3.14-17).
Todas estas recomendações de Paulo visavam exatamente
preservar a pureza do Evangelho, a genuinidade da doutrina, a fidelidade da
guarda do “bom depósito”, do paratheke, contra a intromissão de ensinamentos
espúrios por parte dos judaizantes insubordinados e impostores, bem como de
outros inovadores e corruptores.
Os textos que a dogmática católica arrola em defesa de
sua Tradição militam desfavoráveis à sua pretensão de corromper a limpidez do
“bom depósito” ou paratheke. Incorre ela, outrossim. em anátema, consoante
advertência do mesmo Apóstolo aos falsos irmãos, quando escreveu aos gálatas:
“Se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que
recebestes, seja anátema” (Gálatas 1.9).
Nem em nome de uma outra pretensa e utópica fonte de revelação extra-bíblica
pode-se acrescentar ou retirar nada às Sagradas. Escrituras a menos que se
queira incorrer no desagrado do Senhor como acontece à dogmática católica,
pervertedora da Revelação Divina.
É de se pasmar que quase toda a teologia clerical esteja lastreada sobre essa base de areia movediça. E um castelo de cartas que, com um sopro, se derruba, mas vem, através dos séculos, se constituindo na arma mais eficaz do inferno para desviar as almas de Jesus Cristo. o nosso único e todo-suficiente Salvador.
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