INTRODUÇÃO
Pense em todas as religiões do
mundo. Todas afirmam estar seguindo o caminho de Deus. Pense nos milhões de
hindus na Índia, tão convencidos de que sua religião é a certa. Pense nos
milhões de muçulmanos que creem que Alá é o Deus verdadeiro e Maomé, seu
profeta. Os católicos afirmam que sua religião foi fundada por Cristo e que é a
única religião verdadeira. Adventistas do Sétimo Dia, mórmons, Testemunhas de
Jeová, Ciência Cristã, Igreja Messiânica Mundial, Legião da Boa Vontade,
esoterismo, umbanda, espiritismo kardecista e tantos outros grupos religiosos
também afirmam possuir a verdade.
Todavia, essas religiões não podem estar todas certas ao mesmo tempo, pois ensinam coisas diametralmente
opostas.Jesus advertiu:
“Entrai
pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à
perdição, e muitos são os que entram por ela.” Mateus 7.13
As Testemunhas de Jeová
igualmente reivindicam exclusividade religiosa. Ao longo de sua literatura, a
Sociedade Torre de Vigia apresentou-se como a única religião correta e como a
organização visível escolhida por Deus.
É justamente essa pretensão
que precisamos analisar à luz das Escrituras.
A questão fundamental não é: “O que a Torre de Vigia afirma sobre si mesma?”
A pergunta
correta é:
Suas doutrinas e sua história confirmam essa reivindicação?
AS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA RELIGIÃO
Em sua própria literatura, a
Sociedade Torre de Vigia apresentou características que identificariam a
religião verdadeira, entre elas:
1. Santificação do nome de Deus;
2. Proclamação do Reino de Deus;
3. Respeito pela Palavra de Deus;
4. Manter-se separado do mundo;
5. Amor entre si.
O problema surge quando
aplicamos esses mesmos critérios à própria organização.
Será que as Testemunhas de Jeová passam no teste estabelecido
por sua própria literatura?
1. A QUESTÃO DO NOME DE
DEUS
As Testemunhas de Jeová
colocam enorme ênfase sobre o nome “Jeová” e chegam a argumentar que a
cristandade teria deixado de utilizar corretamente o nome divino.
Entretanto, a própria literatura da Torre de Vigia reconheceu uma dificuldade fundamental: não possuímos hoje certeza absoluta sobre a pronúncia original do Tetragrama hebraico YHWH.
Isso ocorre porque o hebraico
antigo era escrito originalmente sem as vogais como as conhecemos em nosso
sistema moderno. Assim, embora saibamos quais são as quatro consoantes do nome
divino, a pronúncia exata tornou-se objeto de discussão.
Além disso, quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos
algo extremamente significativo: os apóstolos apresentam Jesus Cristo como o nome central da proclamação
cristã.
Pedro declarou:
“E
em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há,
dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” Atos 4.12
No livro de Atos, encontramos repetidamente a importância do
nome de Jesus:
-
Pessoas são curadas em nome de Jesus (At 3.6,16; 4.10,30);
-
A salvação é anunciada em seu nome (At 4.12);
-
O ensino e a pregação são realizados em seu nome (At 4.18; 5.28);
-
Os discípulos sofrem por seu nome (At 5.41; 9.16);
-
Paulo recebe a missão de levar seu nome às nações (At 9.15);
-
Os cristãos são identificados com o nome de Cristo.
Jesus ensinou seus discípulos a se dirigirem a Deus como Pai (Mt 6.9). Na oração cristã encontramos ainda a expressão:
“Aba,
Pai.” Romanos 8.15; Gálatas
4.6
Portanto, a espiritualidade cristã do Novo Testamento não é construída em torno de uma pronúncia específica do Tetragrama, mas da revelação de Deus em Cristo e do relacionamento dos filhos de Deus com o Pai.
2. A PROCLAMAÇÃO DO REINO DE DEUS
É verdade que o cristão deve
proclamar o Reino de Deus. O Evangelho precisa ser anunciado.
Mas qual é o centro dessa
mensagem?
Jesus Cristo.
A esperança cristã não
consiste em simplesmente pertencer a uma organização religiosa ou sobreviver ao
Armagedom mediante fidelidade institucional.
A Bíblia apresenta Cristo como o único Salvador:
“Eu
sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” João 14.6
A Escritura também declara:
“Porque
há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem.” 1 Timóteo 2.5
A salvação não está
condicionada à filiação à Sociedade Torre de Vigia. Ela está vinculada à pessoa
e à obra de Jesus Cristo.
Cristo é suficiente.
Nenhuma organização religiosa pode ocupar o lugar que pertence exclusivamente ao Salvador.
3. RESPEITO PELA PALAVRA DE DEUS
Aqui encontramos um dos problemas mais graves.
As Testemunhas de Jeová
afirmam respeitar profundamente a Bíblia. Entretanto, sua interpretação das
Escrituras está condicionada ao ensino oficial da organização.
A própria literatura da Torre de Vigia atribuiu ao chamado “escravo fiel e discreto” a função de transmitir orientação espiritual aos seus membros.
Na prática, cria-se uma
estrutura na qual o membro dificilmente pode chegar a uma conclusão bíblica que
contrarie a interpretação oficial da organização.
Isso inverte a ordem correta.
Não devemos interpretar a Bíblia pela organização.
Devemos julgar a organização pela Bíblia.
Os bereanos foram elogiados
justamente porque conferiam nas Escrituras aquilo que lhes era ensinado:
“Ora,
estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom
grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas
eram assim.” Atos
17.11
Nenhuma igreja, denominação,
organização ou liderança religiosa possui autoridade para colocar-se acima da
Palavra de Deus.
Quando a interpretação institucional se torna intocável, deixa-se de examinar livremente as Escrituras.
4. MANTER-SE SEPARADO DO MUNDO
A Sociedade Torre de Vigia interpreta a separação do mundo de
maneira peculiar.
Historicamente, as Testemunhas
de Jeová foram orientadas a evitar diversas práticas sociais, cívicas e
culturais, entre elas:
-
Comemorar o Natal;
-
Comemorar aniversários;
-
Saudar a bandeira;
-
Prestar serviço militar;
-
Participar de solenidades cívicas;
-
Cantar o hino nacional;
-
Votar e participar de determinados processos políticos;
-
Receber transfusão de sangue.
Entretanto, precisamos perguntar:
É isso que a Bíblia quer dizer quando ordena que o cristão não
pertença ao mundo?
Jesus ensinou que seus
discípulos estão no mundo, embora não pertençam espiritualmente ao sistema
pecaminoso deste mundo.
A separação bíblica é primordialmente moral e espiritual, e não simplesmente isolamento cultural ou social.
É possível alguém recusar
aniversários, bandeiras ou determinadas cerimônias e, ainda assim, permanecer
longe de Deus.
Santidade não é isolamento institucional.
Santidade é pertencer a Deus.
5. AMOR ENTRE SI
O amor é uma das maiores marcas do verdadeiro cristianismo.
Jesus declarou:
“Nisto
todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” João 13.35
Entretanto, o tratamento
dispensado a pessoas expulsas ou desligadas da organização levanta uma séria
questão.
A literatura da Torre de Vigia
historicamente desencorajou seus membros de manter relacionamento normal com
pessoas consideradas desassociadas.
Isso pode produzir situações dolorosas envolvendo amizades e
até relacionamentos familiares.
Evidentemente, a Bíblia ensina disciplina eclesiástica.
Mas disciplina bíblica tem finalidade restauradora,
não simplesmente punitiva.
Paulo escreveu:
“Irmãos,
se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois
espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão.” Gálatas 6.1
A disciplina cristã deve buscar arrependimento, reconciliação e restauração.
OUTRAS RAZÕES PARA REJEITAR A PRETENSÃO DA TORRE DE VIGIA
Além desses cinco critérios,
existem problemas ainda mais profundos que precisam ser considerados.
6.
DOUTRINAS FUNDAMENTAIS CONTRÁRIAS AO CRISTIANISMO HISTÓRICO
O sistema doutrinário das Testemunhas de Jeová diverge de
doutrinas fundamentais sustentadas historicamente pela Igreja Cristã.
Entre os pontos destacados no documento original estão:
a) negação da doutrina da Trindade;
b) negação da plena divindade de Jesus Cristo;
c) compreensão particular da ressurreição de
Cristo;
d) negação da personalidade e divindade do
Espírito Santo;
e) negação da sobrevivência consciente da alma
após a morte;
f) negação do inferno como castigo consciente;
g) interpretações próprias acerca da segunda vinda
de Cristo.
Não estamos falando, portanto, de diferenças secundárias como
formas de culto, usos e costumes ou sistemas administrativos.
Estamos tratando de questões relacionadas à própria
identidade de Deus, de Cristo, do Espírito Santo e da salvação.
Paulo advertiu:
“Porque,
se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado […] com razão o
sofreríeis.” 2
Coríntios 11.4
A pergunta inevitável é:
O Jesus apresentado pela Torre de Vigia é o mesmo Jesus revelado
no Novo Testamento?
Essa é uma questão decisiva.
7. A TRADUÇÃO DO NOVO MUNDO
A Sociedade Torre de Vigia produziu sua própria versão das Escrituras, conhecida como Tradução do Novo Mundo.
O problema apontado pelo Pr.
Natanael Rinaldi não é simplesmente o fato de uma organização religiosa
produzir uma tradução bíblica.
A questão é se determinadas
opções de tradução foram influenciadas pelas doutrinas previamente defendidas
pela própria organização.
Entre os exemplos
tradicionalmente discutidos estão passagens relacionadas à divindade de Cristo
e à personalidade do Espírito Santo.
Um dos casos mais conhecidos é João 1.1.
O texto bíblico declara:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
A Tradução do Novo Mundo
adotou uma formulação diferente para a última expressão, coerente com sua
cristologia.
Esse tipo de decisão levanta
uma questão metodológica fundamental:
A doutrina deve nascer da tradução do texto bíblico ou a tradução
do texto bíblico deve ser adaptada à doutrina previamente estabelecida?
Para o cristão comprometido
com a autoridade das Escrituras, a resposta é clara.
A Bíblia deve corrigir nossa
teologia.
Nossa teologia jamais deve corrigir a Bíblia.
8. AS FALSAS EXPECTATIVAS PROFÉTICAS
Talvez um dos pontos
historicamente mais importantes apresentados no documento seja o histórico de
expectativas proféticas associadas a determinadas datas.
O material de Natanael Rinaldi
reúne declarações publicadas pela literatura ligada à Torre de Vigia referentes
especialmente aos anos:
1914
Publicações antigas associaram
esse período a grandes acontecimentos escatológicos e ao Armagedom.
1925
Criou-se expectativa
envolvendo o retorno de personagens bíblicos do Antigo Testamento e
acontecimentos relacionados ao estabelecimento da nova ordem.
1941
Novamente aparecem declarações enfatizando a extrema
proximidade do Armagedom.
1975
Esse período tornou-se particularmente
conhecido pela expectativa criada em torno do término de aproximadamente seis
mil anos da existência humana.
Posteriormente, a própria
literatura da organização reconheceu que alguns membros alimentaram
expectativas equivocadas.
Entretanto, a questão permanece:
Como uma organização que reivindica orientação singular de Deus
pode apresentar repetidamente expectativas proféticas que não se concretizam
como anunciado ou esperado?
A Bíblia estabelece um
princípio muito sério:
“Quando
o tal profeta falar em nome do Senhor, e tal palavra se não cumprir, nem
suceder assim, esta é palavra que o Senhor não falou.” Deuteronômio 18.22
O cristão deve ser extremamente cauteloso diante de qualquer organização que reivindique autoridade divina especial enquanto acumula um histórico de expectativas proféticas frustradas.
O PROBLEMA DA “LUZ PROGRESSIVA”
Diante das mudanças doutrinárias ocorridas ao longo da história da organização, frequentemente se recorre à ideia de “luz progressiva”, usando especialmente Provérbios 4.18:
“Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.”
Contudo, o contexto desse
texto não está ensinando que uma organização pode anunciar uma doutrina como
verdade divina, posteriormente substituí-la por outra e justificar a
contradição dizendo que recebeu mais luz.
O contraste de Provérbios é entre o caminho do justo e o caminho do ímpio.
Há uma diferença entre crescimento no conhecimento bíblico e
contradição doutrinária.
Um cristão pode compreender melhor determinada doutrina ao
longo do tempo.
Isso é natural.
O problema ocorre quando uma instituição reivindica
autoridade divina para ensinar algo e posteriormente ensina o contrário.
Verdade progressivamente compreendida não significa verdade
contraditória.
Deus não precisa corrigir aquilo que Ele próprio revelou.
O GRANDE PERIGO: A ORGANIZAÇÃO NO LUGAR DE CRISTO
Chegamos, então, ao problema central.
Quando uma organização
religiosa começa a apresentar-se como o único canal pelo qual Deus comunica a
verdade à humanidade, cria-se um enorme perigo espiritual.
A lealdade a Cristo pode gradualmente ser confundida com
lealdade à instituição.
Questionar a instituição passa a ser interpretado como
questionar Deus.
Abandonar a organização passa a ser apresentado praticamente
como abandonar a verdade.
Mas o Novo Testamento nunca disse:
“Vinde à organização.”
Jesus disse:
“Vinde a
mim.” Mateus 11.28
A Igreja não salva.
Uma denominação não salva.
Nenhuma organização humana salva.
Jesus Cristo salva.
Pedro declarou:
“Senhor,
para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.” João 6.68
Observe que Pedro não perguntou:
“Para qual organização iremos?”
Ele perguntou:
“Para quem iremos?”
A resposta do Evangelho não é uma instituição.
A resposta é uma Pessoa.
Jesus Cristo.
CONCLUSÃO
À luz dos argumentos
apresentados pelo Pr. Natanael Rinaldi, a reivindicação de que a Sociedade
Torre de Vigia seja a única organização visível de Deus na Terra não se
sustenta simplesmente porque a própria organização assim o afirma.
Toda reivindicação religiosa precisa ser examinada pela Palavra de Deus.
O histórico
doutrinário da Torre de Vigia, sua interpretação peculiar de doutrinas cristãs
fundamentais, as controvérsias relacionadas à Tradução do Novo Mundo, sua
autoridade interpretativa centralizada e as expectativas proféticas frustradas
constituem razões sérias para rejeitar sua pretensão de exclusividade
espiritual.
Paulo estabeleceu um princípio
que continua válido:
“Examinai
tudo. Retende o bem.” 1 Tessalonicenses 5.21
Nossa fé não pode estar fundamentada em homens, organizações,
corpos governantes ou instituições religiosas.
O fundamento da Igreja é Cristo.
A autoridade doutrinária é a Palavra de Deus.
E o Evangelho não chama o pecador para tornar-se dependente
de uma organização.
O Evangelho chama o pecador para reconciliar-se com Deus por meio
de Jesus Cristo.
Por isso, diante de qualquer organização que reivindique ser
o único canal de Deus na Terra, devemos fazer a mesma coisa que os bereanos
fizeram:
abrir a Bíblia e conferir se aquilo que está sendo ensinado realmente está de acordo com a Palavra de Deus.
Autor
Pr. Natanael Rinaldi
Pesquisador e apologista cristão
São Paulo, julho de 1988
Nota editorial: O presente artigo foi preparado a partir de
material datilografado pelo Pr. Natanael Rinaldi, pesquisador e um dos grandes
nomes da apologética cristã brasileira. O texto foi reorganizado editorialmente
para facilitar a leitura, preservando sua argumentação, suas referências e seu
caráter apologético. O documento original é datado de São Paulo, julho de 1988.
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