Uma
resposta arminiana ao fatalismo e à ideia de culpa pessoal herdada
Salmo 58:3 é algumas vezes
utilizado para defender a ideia de que o ser humano já nasce pessoalmente
culpado diante de Deus e que, desde o primeiro instante de sua existência,
encontra-se moralmente condenado por uma culpa herdada de Adão. Entretanto, uma
leitura cuidadosa do texto, considerando seu gênero literário, seu contexto e a
responsabilidade moral ensinada pelas Escrituras, mostra que essa conclusão vai
além daquilo que o salmista realmente afirma.
O texto não está apresentando um tratado sistemático sobre pecado original, muito menos ensinando um determinismo segundo o
qual determinados seres humanos nasceriam fatalmente destinados à prática do mal. Davi está empregando a linguagem vigorosa e poética característica dos Salmos para descrever homens profundamente entregues à perversidade.1. O contexto de Salmo 58
O Salmo 58 é uma denúncia
contra governantes e juízes perversos. O salmista começa perguntando:
“Acaso falais vós deveras justiça, ó congregação? Julgais
retamente, ó filhos dos homens?”
(Sl 58:1)
Logo depois acrescenta:
“Antes, no coração forjais iniquidades; sobre a terra fazeis pesar
a violência das vossas mãos.”
(Sl 58:2)
Observe a linguagem utilizada: eles forjam iniquidades, praticam violência e agem injustamente. Estamos diante de pessoas moralmente responsáveis por seus atos.
É nesse contexto que aparece o
versículo 3:
“Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que
nasceram, proferindo mentiras.”
Portanto, o assunto não é uma
exposição sobre a condição metafísica de todos os bebês ao nascer. O salmista
está descrevendo poeticamente a perversidade daqueles homens.
2. A linguagem é claramente poética e hiperbólica
Um detalhe praticamente resolve a questão: o versículo afirma que esses homens andam errados “desde que nasceram, proferindo mentiras”.
Perguntamos: um bebê
recém-nascido consegue formular proposições falsas deliberadamente?
Evidentemente que não.
Mentir pressupõe consciência, linguagem e intenção. Para que exista mentira moralmente culpável, é necessário que a pessoa saiba ou suponha que determinada informação é falsa e, ainda assim, deliberadamente procure enganar alguém.
Portanto, se interpretarmos literalmente cada expressão do versículo, teríamos de concluir absurdamente que recém-nascidos falam e contam mentiras.
Isso demonstra que estamos diante de uma hipérbole poética.
A ideia é semelhante à nossa
maneira cotidiana de dizer: “Ele faz isso desde que nasceu”. Ninguém
necessariamente pretende estabelecer o primeiro minuto da vida como o início
cronológico daquela ação. A expressão enfatiza que determinado comportamento
começou muito cedo.
3. O texto diz “alienam-se”, não “nasceram
alienados”
Esse ponto merece atenção
especial.
O texto não simplesmente
afirma: “Os ímpios foram criados ímpios”.
Ele declara:
“Alienam-se os ímpios…”
Existe aqui a descrição de um
afastamento. Em seguida:
“andam errados…”
Novamente encontramos
linguagem relacionada à conduta.
O salmista está descrevendo
pessoas que se desviam e caminham no erro. Não está afirmando que Deus as criou
moralmente culpadas ou decretou irresistivelmente que deveriam permanecer nesse
estado.
A própria sequência do texto
enfatiza suas ações:
- Forjam iniquidades (v. 2);
- Praticam violência (v. 2);
- Desviam-se (v. 3);
- Andam errados (v. 3);
- Proferem mentiras (v. 3);
- Recusam-se a ouvir (vv. 4-5).
Existe responsabilidade moral
do começo ao fim.
4. Salmo 58:3 não ensina fatalismo
O fatalismo religioso
transforma o pecado praticamente em uma inevitabilidade decretada: o indivíduo
pratica aquilo que não poderia deixar de praticar e, posteriormente, é
responsabilizado por aquilo que inevitavelmente faria.
Não é isso que encontramos no
Salmo 58.
Davi condena esses homens
justamente porque suas atitudes são moralmente perversas. Eles não aparecem
como vítimas passivas de uma determinação divina, mas como agentes
responsáveis.
Isso está perfeitamente de
acordo com a compreensão arminiana da responsabilidade humana.
A queda de Adão trouxe
consequências universais e colocou a humanidade sob a realidade da morte e de
um mundo corrompido pelo pecado. Contudo, isso não significa que cada
descendente de Adão seja pessoalmente responsável pelo ato cometido por ele no
Éden.
Há uma diferença fundamental entre herdar as consequências da
queda e herdar a culpa pessoal do ato de Adão.
5. Romanos 5:12 e a consequência do pecado de Adão
Paulo declara:
“Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo
pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que
todos pecaram.” (Rm 5:12)
Observe cuidadosamente a
sequência:
Adão → pecado entra no mundo → morte entra pelo pecado → morte
alcança todos os homens.
A consequência adâmica é
universal. Todos nós nascemos sujeitos à mortalidade e inseridos numa
humanidade afetada pela queda.
Mas sofrer a consequência de
um pecado não significa necessariamente carregar a culpa pessoal daquele que o
praticou.
Um filho pode sofrer
consequências terríveis das escolhas de seu pai sem ser moralmente culpado
pelas escolhas paternas.
Paulo não diz em Romanos 5:12 que “todos pessoalmente cometeram o pecado de Adão”. Ele conclui dizendo: “por isso que todos pecaram”.
Existe, portanto, uma
distinção importante entre solidariedade com a humanidade caída e
responsabilidade moral pessoal.
6. Ezequiel 18 e a responsabilidade individual
Essa distinção aparece
claramente em Ezequiel:
“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade do
pai, nem o pai levará a maldade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele,
e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” (Ez 18:20)
O princípio estabelecido é
inequívoco: Deus julga moralmente cada pessoa por sua própria resposta diante
dele.
Isso não nega os efeitos coletivos do pecado. Os filhos frequentemente sofrem consequências provocadas pelos pais. Entretanto, consequência herdada não é a mesma coisa que culpa pessoal herdada.
Essa distinção ajuda-nos a
compreender adequadamente tanto Romanos 5 quanto Salmo 58.
7. Crianças pequenas e responsabilidade moral
A Bíblia também apresenta
textos que indicam um estágio anterior à capacidade de discernimento moral
plenamente desenvolvido.
Deuteronômio 1:39 fala das crianças:
“E vossos meninos, de que dissestes: Por presa serão; e vossos
filhos, que hoje nem bem nem mal sabem…”
Isaías utiliza conceito
semelhante:
“Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem…”
(Is 7:16)
Existe, portanto, uma
diferença bíblica entre possuir uma natureza humana afetada pela queda e
realizar escolhas moralmente conscientes.
A criança nasce mortal e
inserida numa humanidade caída. Contudo, isso não significa automaticamente que
já esteja praticando pecado pessoal consciente desde o ventre.
8. Romanos 7:9 também merece consideração
Paulo faz uma declaração
particularmente interessante:
“E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento,
reviveu o pecado, e eu morri.” (Rm 7:9)
Independentemente das
discussões exegéticas existentes sobre todo o contexto de Romanos 7, a
linguagem utilizada por Paulo não deve ser ignorada.
Ele descreve uma situação em
que “vivia sem lei”, seguida da chegada do mandamento à sua consciência, quando
o pecado assume uma dimensão de transgressão consciente.
Isso combina com o princípio
apresentado em Romanos 4:15:
“Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há
transgressão.”
E também com Tiago:
“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e o não faz comete pecado.” (Tg 4:17)
Responsabilidade moral
pressupõe algum nível de conhecimento e consciência.
9. O arminianismo não nega a gravidade da queda
É importante evitar o extremo
oposto.
Dizer que Salmo 58:3 não ensina culpa pessoal desde o ventre não significa ensinar que o homem nasce moralmente perfeito, independente de Deus ou imune aos efeitos da queda.
A humanidade encontra-se
profundamente afetada pelo pecado.
Somos mortais.
Nascemos dentro de uma
humanidade caída.
Vivemos num ambiente contaminado
pelo pecado.
Possuímos tendências e
fragilidades decorrentes dessa condição.
E todos aqueles que alcançam
responsabilidade moral acabam praticando pecado:
“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.” (Rm 3:23)
A perspectiva arminiana leva a sério tanto a universalidade do pecado quanto a responsabilidade humana.
A graça de
Deus precede, chama, convence e capacita o pecador a responder ao chamado
divino, sem transformar o homem numa máquina programada para pecar ou crer.
10. O próprio Salmo 58 pressupõe responsabilidade
Existe ainda um problema
lógico na interpretação fatalista do texto.
Se “desde a madre”
significasse que aqueles homens foram inevitavelmente constituídos perversos
sem qualquer possibilidade moral diferente, por que o salmista os censuraria
por aquilo que inevitavelmente foram determinados a fazer?
O contexto faz muito mais
sentido quando compreendido em termos de responsabilidade.
Eles são condenados porque:
“no coração forjais iniquidades” (v. 2).
A expressão “no coração”
aponta justamente para o centro da vontade e das decisões humanas.
Eles não aparecem como homens
tentando desesperadamente fazer o bem enquanto Deus os força irresistivelmente
ao mal. Pelo contrário, são homens que deliberadamente abraçaram a injustiça.
11. “Desde a madre” é uma expressão semítica de
intensidade
Os Salmos utilizam diversas
vezes linguagem extrema relacionada ao nascimento.
Davi declara:
“Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o
ventre de minha mãe.” (Sl 22:10)
Devemos concluir que Davi,
ainda como embrião, possuía compreensão teológica consciente de Deus?
Evidentemente não.
O salmista está empregando
linguagem poética para enfatizar a presença e o cuidado de Deus desde o
princípio de sua existência.
Da mesma maneira, Salmo 58:3
emprega linguagem intensa para destacar quão cedo aqueles homens haviam
abraçado caminhos perversos.
Transformar poesia hebraica em
uma definição técnica sobre imputação da culpa adâmica é impor ao texto uma
questão que ele não está procurando responder.
12. Salmo 58:3 não pode ser transformado em
tratado sobre pecado original
Esse talvez seja o principal
erro exegético.
Antes de perguntar: “Como
encaixo esse versículo no meu sistema teológico?”, devemos perguntar:
“O que o salmista está dizendo dentro deste salmo?”
O Salmo 58 trata da
perversidade de governantes injustos e do julgamento divino que virá sobre
eles.
Não está discutindo:
- A imputação do pecado de Adão;
- A condição jurídica dos
recém-nascidos;
- A idade da responsabilidade;
- Eleição incondicional;
- Predestinação individual;
- Incapacidade irresistível para o bem.
Essas questões precisam ser
analisadas utilizando o conjunto das Escrituras, e não mediante a transformação
de uma expressão poética em uma declaração dogmática que o próprio salmo não
faz.
CONCLUSÃO
Salmo 58:3 não ensina que Deus
cria algumas pessoas fatalmente destinadas à perversidade, nem prova que bebês
estejam conscientemente pecando ou “proferindo mentiras” desde o nascimento.
O texto emprega linguagem poética e hiperbólica para descrever a profundidade e a precocidade da perversidade de homens que voluntariamente abraçaram o caminho da injustiça.
A Bíblia ensina claramente os efeitos universais da queda de Adão. Por meio dele, pecado e morte entraram no mundo (Rm 5:12). Entretanto, devemos distinguir cuidadosamente consequência adâmica de culpa moral pessoal.
Sofremos as consequências da
queda de Adão, especialmente a mortalidade, mas Deus continua tratando o ser
humano como agente moral responsável. “O filho não levará a maldade do pai” (Ez
18:20).
Assim, dentro de uma leitura arminiana, Salmo 58:3 não constitui qualquer problema. Pelo contrário: seu contexto reforça a responsabilidade humana. Os ímpios são julgados não porque Deus os programou irresistivelmente para serem perversos, mas porque “no coração” forjaram iniquidades, andaram pelo caminho do erro e persistiram deliberadamente nele.
A graça chama; Deus adverte; o
Espírito convence; o homem responde. E é justamente porque existe verdadeira
responsabilidade moral que a Escritura pode chamar o pecador ao arrependimento:
“Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus
pensamentos, e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele.” (Is 55:7)
Se o ímpio pode ser chamado por Deus a deixar o seu caminho e converter-se, Salmo 58:3 jamais deve ser utilizado para transformar sua perversidade em fatalismo.
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