Através da história, muitas pessoas tem sido dualistas,
pelo menos no sentido de que eles veem os ser humano como um tipo de ser
que poderia entrar na vida após a morte, enquanto seus corpos são
deixados para trás. Alguma forma de dualismo parece ser a resposta natural para
o que aparentemente conhecemos sobre nós mesmos pela introspecção e de outras
maneiras.[1]
Muitos filósofos que negam o dualismo têm que admitir que esta é a visão do senso comum. Quando nós vamos para a história da Igreja, vemos a mesma coisa. A vasta maioria dos cristãos creem que
um ser humano é uma unidade em duas entidades distintas: corpo e alma. (Alguns esposam a tricotomia do corpo, alma e espírito).A alma humana é capaz de entrar em um estado
intermediário incorpóreo, mesmo esse estado sendo incompleto e não natural;
eventualmente, será unida a um corpo ressurreto. Isto é chamado de dualismo de
substância.
Emergência do fisicalismo
cristão
Surpreendentemente, alguns
pensadores cristãos abandonaram o dualismo da substância em prol de algum tipo
de fisicalismo. Eles afirmam que uma alma é “uma capacidade funcional de
um organismo físico complexo, ao invés de uma essência espiritual separada
…” 1
Os motivos desta tendência são variados e complicados,
mas dois são citados frequentemente. Primeiro, muitos afirmam que o
surgimento da ciência moderna questionou a realidade de uma substancia na
alma. Alegadamente, a neurofisiologia demonstraria uma dependência radical
entre ambos e a identidade entre mente e cérebro. Segundo, alguns afirmam
que a Escritura retrata a pessoa humana como uma unidade holística, enquanto
que o dualismo é um conceito grego motivado por um erro de interpretação
bíblica que foi propagado na história da igreja.
Nenhum desses argumentos,
no entanto, está correto. Quanto ao primeiro, lido com este argumento em
grande detalhe em outros lugares. 2 O segundo
argumento será o foco deste artigo. Eu argumentarei que esta objeção é
falha e que a visão tradicional da igreja está correta.
Por que o debate é importante?
Neste ponto, o leitor pode estar se perguntando por que a
igreja deve se preocupar com um debate como esse. Afinal, os
desentendimentos doutrinários já são muitos, então por que trazer mais um
problema envolvendo esse assunto sobre a alma? Há pelo menos quatro razões
pelas quais esse debate é importante para a causa de Cristo. Primeiro, sob
a pressão do cientificismo, o fisicalismo é uma revisão inadequada do ensino
bíblico que é central no núcleo da teologia cristã.
Em segundo lugar, a maioria dos fisicalistas cristãos
afirma que, na morte, uma pessoa deixa de existir e é recriada ex nihilo na
ressurreição. Deixando de lado os problemas de identidade pessoal e
dificuldades com o ensino bíblico sobre um estado intermediário desencarnado
entre a morte e a ressurreição final, essa visão torna a realidade da
imortalidade mais difícil de abraçar do que o dualismo da substância.
Em terceiro lugar, o cristianismo implica uma visão de
mundo segundo a qual o mundo físico não é tudo o que existe. Há um vasto
universo de seres imateriais em que Deus, anjos e, talvez, objetos abstratos
existem. A visão tradicional da alma retrata-a como parte do mundo
imaterial e invisível, juntamente com o conhecimento introspectivo de cada
pessoa como fazendo parte desse mundo invisível. O dualismo da substância
é muito mais coerente com a metafísica imaterial do cristianismo do que o
fisicalismo, e proporciona certa justificação para a crença nesse mundo
invisível.
Finalmente, o fisicalismo cristão tende a representar a
personalidade em termos puramente funcionais, com o resultado de que a pessoa
completa se resume apenas a um cérebro que funciona adequadamente. Uma
implicação problemática desta visão é que alguns membros vulneráveis da raça
humana (por exemplo, fetos, recém-nascidos deficientes, idosos disfuncionais)
podem não ser mais considerados pessoas com valor e posição moral plena.
Neste contexto, ofereço uma defesa bíblica do dualismo da
substância. Antes de começar minha defesa, é útil saber qual a versão do
dualismo de substância que estou defendendo. Na minha opinião, a mente e o
espírito são faculdades da alma e a alma é uma realidade imaterial substancial
que contém as várias faculdades da consciência de uma pessoa. A alma informa,
difunde e anima o corpo e torna-o humano. Uma pessoa é idêntica à sua alma
e possui um corpo intimamente unido à alma. Embora a identidade pessoal
possa ser sustentada sem um corpo, o funcionamento humano completo é um
funcionamento holístico da alma junto com o corpo. No mínimo, um cristão
deve sustentar que uma pessoa pode manter sua identidade pessoal vivendo em um
estado intermediário desencarnado enquanto, por outro lado, aguarda a
ressurreição do seu corpo.
A Visão bíblica sobre a alma no
Antigo Testamento
A principal ênfase na teologia do Antigo Testamento é a
unidade funcional e holística do ser humano. Mas a representação do Velho
Testamento desta unidade inclui a dualidade de componentes imateriais /
materiais, de modo que o ser humano individual pode viver após a morte
biológica em um estado intermediário, enquanto aguarda a ressurreição do
corpo. Existem dois fundamentos principais para essa afirmação: a análise
dos termos antropológicos do Antigo Testamento e a revisão geral do ensino do
Velho Testamento sobre a vida após a morte.
Os termos antropológicos
bíblicos exibem uma ampla gama de significados, tanto do Velho, quanto do Novo
Testamento. Talvez os dois termos mais importantes do Antigo Testamento
sejam nephesh (frequentemente traduzido por “alma”)
e ruach (frequentemente traduzido por “espírito”).
O termo Nephesh
O termo nephesh ocorre 754 vezes no Antigo Testamento e é
usado principalmente para seres humanos, embora também seja usado para animais
(Gênesis 1:20, 24, 30; 9:10) e até mesmo para Deus (Isaias 1:14). 3 Quando o termo é usado com referência a Deus,
é óbvio que não significa respiração física ou vida apenas. Em vez disso,
ele se refere a Deus como um eu imaterial e transcendente, mente, vontade,
emoção, e assim por diante (veja, por exemplo, Amós 6:8). De acordo
com um léxico hebraico e inglês do Antigo Testamento ,
o termo tem três significados básicos: o princípio da vida, vários usos
figurativos e a alma do homem que “se afasta da morte e retorna com a vida na
ressurreição” .4
Há um uso mais lato do
termo em algumas passagens onde nephesh refere-se
a uma parte do corpo, por exemplo, a garganta ou a boca (Isaías 5:14) ou o
pescoço (Salmos 105: 18), e pode até ser usado para se referir a um cadáver
humano (Números 5: 2; 6:11). Algumas vezes se refere a um desejo de algum
tipo, como por exemplo, por comida ou sexo.
Em outras ocasiões, nephesh refere-se à própria vida (Levítico 17:11)
ou a um princípio vital / entidade substancial que faz algo ser animado ou vivo
(Salmo 30: 3, ver Salmos 86:13; Provérbios 3: 22.). Nephesh também se refere ao centro da emoção, da
vontade, das atitudes morais e do desejo / anseio por Deus (Provérbios 21:10;
Isaías 26: 9; Deuteronômio 6: 5; 21:14).
Finalmente, existem
passagens nas quais nephesh se
refere ao locus contínuo da identidade pessoal que se afasta da vida após o
término do último suspiro (Gênesis 35:18; ver Salmos 16:10; 30: 3; 49:15; 86 :
13; 139: 8; 1 Reis 17: 21-22; Lamentações 1: 1). A morte e a ressurreição
são mencionadas em termos de partida e retorno da alma. De fato, o
problema da necromancia em toda a história de Israel (a prática de tentar se
comunicar com os mortos no Sheol, ver Deuteronômio 18: 9-14, 1 Samuel 28:
7-25) parece implicar que o antigo Israel acreditava que as pessoas tinham
vidas conscientes após a morte de seus corpos. 5
Às vezes, argumenta-se
que, nestes e outros contextos, nephesh é
simplesmente um termo que representa o pronome pessoal “eu” ou “mim”, e, como
tal, ele simplesmente se refere à pessoa como uma totalidade. (Muitas
vezes, a palavra nem sequer aparece na tradução, mas é simplesmente processada
com o pronome pessoal) Uma maneira de colocar esse argumento é afirmar que,
frequentemente, o termo nephesh é
usado como figura de linguagem conhecida como sinédoque; isto
é, quando uma parte de algo é usada para se referir a toda entidade. Nephesh, portanto, não se refere a uma parte da
pessoa, mas à pessoa como uma unidade psicofísica completa.
Esta afirmação não leva em
consideração o fato de que é em virtude do nephesh e não
do corpo per se que o ser humano é um ser vivo e sensível capaz de vários
estados de emoção, vontade e assim por diante. Mesmo que certas passagens
usem nephesh para se referir simplesmente a toda a
pessoa (Salmos 103: 1), é toda a pessoa como um centro unificado de pensamento,
ação e emoção conscientes; isto é, como um corpo. Além disso, nos
casos de sinédoque, embora o todo seja o referente pretendido do termo,
implícito no emprego da figura de linguagem, não deixa de ser um reconhecimento
da realidade da parte. Quando alguém diz: “Todas as mãos no convés!” Ele
pode estar se referindo a pessoas inteiras, mas ele faz isso por meio das
partes – mãos – que existem e são constituintes literais do todo. O mesmo
se aplica ao nephesh quando é usado como
sinédoque.
O termo Ruach
Outro “termo antigo”
é ruach , frequentemente traduzido como “espírito”.
O termo ocorre 361 vezes em algumas traduções específicas tais como a KJV e
possui os seguintes significados: o Espírito de Deus (105 vezes), os anjos (23
vezes), o espírito no homem (59 vezes), o vento (43 vezes), uma atitude ou
estado emocional (51 vezes), mente (6 vezes) e respiração (14 vezes). 6Brown, Driver e Briggs enumeram nove significados:
(1) Espírito de Deus, (2) anjos, (3) o princípio da vida em humanos e animais,
(4) espíritos desencarnados, (5) respiração, (6) vento, ( 7) disposição ou
atitude, (8) a base das emoções, e (9) a base da mente e da vontade nos seres
humanos. As definições 1, 2 e 4 claramente têm implicações dualistas diretas,
e as definições 3 e 7-9 também ocorrem quando percebemos que, se os argumentos
dualistas são bem sucedidos, o princípio / sede da vida e da consciência é um
eu transcendente ou um ego imaterial de algum tipo. Ruach claramente se sobrepõe com nephesh ; no entanto, duas diferenças
parecem caracterizar os termos. Primeiro, ruach na
maioria das vezes é o termo utilizado para Deus (embora também seja usado para
animais, cf. Eclesiastes 3:19, Gênesis 7:22). Em segundo lugar, ruach
enfatiza a noção de poder. Na verdade, se houver um fio central para ruach , parece ser um centro unificado do poder
inconsciente (movimento de ar) ou consciente (Deus, anjos, seres humanos,
animais).
Ruach frequentemente se refere ao vento, na medida em que
é um poder invisível e ativo à disposição de Deus (Gênesis 8: 1 Isaías 7:
2). Nesse sentido, o espírito de Deus paira sobre as águas com o
poder de criar (Gênesis 1: 2). O termo também significa o próprio sopro
(Jó 19:17) ou, mais frequentemente, um poder vital que infunde algo, o anima e
lhe dá vida e consciência. Nesse sentido, o espírito no homem é dado
ou formado por Javé (Zacarias 12: 1); é o que procede e retorna Dele e é o
que dá vida ao homem (Jó 34: 14 p.). Em Ezequiel 37, Deus toma ossos
secos, reconstitui corpos humanos de carne, tendões, pele e assim por diante, e
depois acrescenta um ruach para
esses corpos para torná-los pessoas vivas. Ezequiel 37 é paralelo a
Gênesis 2: 7, em que Deus respira neshama – um
sinônimo virtual de ruach que
significa “o sopro da vida” – em um corpo já formado. Em ambos os textos,
a entidade que Deus acrescenta é (1) aquela que anima e torna viva a pessoa, e
(2) produzida pelo ato direto de Deus, portanto, não é emergente ou inerente às
propriedades da matéria. O ruach é algo
que pode partir na morte (Salmos 146: 4; Eclesiastes 12: 7; Jó 4:15). Não
há ruach em ídolos de madeira ou pedra, e, portanto,
não podem surgir e possuir consciência (Habacuque 2:19, Jeremias 10:14).
Ruach também se refere a um ser independente, invisível e
consciente, como quando Deus emprega um espírito para realizar algum propósito
(2 Reis 19: 7; 22: 21-23). Neste sentido, o Senhor é chamado o Deus dos
espíritos ( ruachs ) de toda a carne
(Numeros 27:16;. Cf. 16.22). Aqui, “espírito” significa uma entidade
individual, consciente, distinta do corpo. Além disso, ruach também se
refere a sede de estados de consciência, incluindo a vontade (Deuteronômio
2:30; Jeremias 51:11; Salmos 51: 10-12), cognição (Isaías 29:24), emoção (1
Reis 21: 4), e disposição moral / espiritual (Eclesiastes 7: 8; Provérbios
18:14).
À luz do nosso breve
estudo sobre nephesh e ruach , deve ficar claro que a crença em alguma
forma de dualismo do Antigo Testamento é justificada.
O Antigo Testamento e a Vida
após a Morte
O Antigo Testamento
claramente descreve a sobrevivência individual após a morte física, e essa
maneira de existir parece ser desencarnada, isto é, sem o corpo. Os mortos
no sheol são chamados de reafim ,
significando sombras (por exemplo, Salmos 88:11). Tal como acontece com a
maioria dos termos do Antigo Testamento, o sheol tem uma
variedade de significados, incluindo simplesmente a própria sepultura. Mas
não há dúvida de que um dos significados de sheol diz
respeito a um reino sombrio habitado por todos os mortos (com exceção de Enoque
e Elias).
Por uma série de razões, a
revelação do Velho Testamento sobre a vida após a morte é melhor compreendida
em termos restrito, embora consciente, de sobrevivência pessoal desencarnada em
um estado intermediário. Primeiro, a vida no sheol é muitas vezes
retratada como letárgica e inativa de uma maneira que se assemelha a um coma
inconsciente (Jó 3:13; Eclesiastes 9:10; Isaias 38:18; Salmos 88: 10-12; 115:
17- 18). Por outro lado, os mortos no sheol também são descritos como
sendo familiares, conscientes e ativos na ocasião (Isaias 14: 9-10). Em
segundo lugar, acreditava-se que a prática da necromancia (comunicação com os
mortos) era uma possibilidade do povo de Israel por causa de sua crença em um
estado intermediário desencarnado (Isaias 8:19; Levítico 19:31; 20: 6 ;
Deuteronomio 18:11; 1 Salmos 28). Mesmo que o verdadeiro contato com os
mortos não possa ocorrer sem a intervenção milagrosa de Deus (por exemplo, 1
Samuel 28), ainda parece haver a presunção de vida consciente
desencarnada. Em terceiro lugar, já vimos que a nephesh – uma pessoa consciente sem carne e osso –
pode partir para Deus após a morte (p. ex., Salmos 49:15). Finalmente, o
Antigo Testamento ensina claramente a esperança da ressurreição para além do
túmulo (Jó 19: 25-27; Salmos 73:26, Daniel 12: 2, Isaías 26:14, 19). É
possível interpretar esses textos sobre ressurreição de uma maneira que venha
negar um estado intermediário consciente, analisaremos esta possibilidade
quando nos voltarmos para o ensino do Novo Testamento sobre o estado
intermediário. Parece claro, no entanto, que a maneira mais natural de os
interpretar é em termos de alma / espírito como o local da identidade pessoal
que sobrevive à morte em um estado incompleto, ao qual um corpo de ressurreição
será adicionado algum dia.
Em suma, o Antigo Testamento ensina que a alma / espírito
é uma entidade imaterial que unifica funções conscientes e vivas, que
constituem identidade pessoal, que pode sobreviver à morte física em um estado
intermediário e que será reunida eventualmente com um corpo na ressurreição.
Quando nos voltamos para o ensino do Novo Testamento, essa visão dualista da
vida humana torna-se ainda mais convincente.
A visão bíblica sobre a alma no
Novo Testamento
Existem passagens
essenciais do Novo Testamento que parecem usar o termo espírito em um sentido dualístico. Primeiro
examinaremos os textos não-paulinos.
A antropologia nas
epístolas Gerais do Novo Testamento
1 Pedro 3: 18-20. De acordo com este texto, depois que Jesus morreu ele foi
e proclamou algo aos espíritos em prisão que haviam sido desobedientes durante
os dias de Noé. Este texto é importante por duas razões. Primeiro,
quem são os espíritos a quem Jesus pregou? Existem três interpretações
principais sobre isso. Alguns argumentam que este texto se refere ao
Cristo pré-encarnado pregando aos ímpios durante os dias de Noé. Essa
interpretação é a menos provável, porque rompe com a ordem cronológica da
passagem: Jesus morreu (v. 18), Ele pregou (v. 19), Ele ascendeu ao céu (v.
22). O versículo 18 contém dois particípios aórticos (tendo sido morto,
sendo vivificado no espírito) que estabelecem ações que ocorrem ao mesmo tempo
que o verbo principal (Cristo morreu). Em outras palavras, os eventos
descritos ocorreram no momento da crucificação. As interpretações duas e
três implicam que, entre a sua morte e a sua ressurreição, Cristo pregava tanto
aos espíritos desencarnados no estado intermediário como aos anjos
presos. A visão anterior implica um dualismo antropológico, embora o texto
seja muito ambíguo para permitir o dogmatismo em relação a qualquer
interpretação.
O segundo motivo para o significado do texto centra-se no
próprio Cristo. Entre Sua morte e ressurreição, Ele continuou a existir
como Deus-homem no estado intermediário, independente de seu corpo
terrestre. Seja o que for que permitiu que Jesus continuasse sendo humano,
não poderia ser o Seu corpo terrestre. A solução mais razoável é que Jesus
continuou a ter uma alma / espírito humano, uma solução consistente com “ser
vivificado no espírito” (v. 18).
Hebreus 12:23. Este texto refere-se a pessoas falecidas, mas existindo
na Jerusalém celestial, como “os espíritos dos justos aperfeiçoados”. A
expressão “espíritos” é usada em referencia a seres humanos no estado
intermediário ou após a ressurreição final. De qualquer forma, os seres
humanos falecidos são descritos como espíritos incorpóreos, uma descrição que
se encaixa no contexto em que a Jerusalém celestial é contrastada com o que
pode ser tocado e percebido empiricamente (v. 18-19).
Quando essa linguagem é usada para falar dos anjos, isso
implica claramente a ideia de um ser angélico idêntico a um espírito
desencarnado, consequentemente, possui implicações fortes para pessoas. Essa
leitura, por conseguinte, deixa o texto mais natural. Além disso, os
verbos de Hebreus 12: 18-24 estão no tempo presente, por isso é altamente
provável que o verso se refira a pessoas desencarnadas no estado intermediário
que aguardam uma ressurreição final (cf. Hebreus 11: 35).
A morte como “a partida do
pneuma”. Vários textos
referem-se à morte como “expirar” ou “entregar o espírito” (Mateus 27:50;
João 19:30; Lucas 23:46; 24:37; “sair da alma” ( psuche ) é usado em Atos 5: 5, 10;
12:23). Muito provavelmente, esta frase expressa a ideia da partida da
pessoa para o estado intermediário e não simplesmente a cessação da respiração,
porque (1) Jesus não entregou simplesmente sua respiração a Deus (Lucas
23:46); (2) esta era uma maneira padrão de se referir aos mortos
desencarnados no judaísmo intertestamentário; (3) Lucas 24: 37-39
claramente usa “espírito” no mesmo sentido em que rephaim é usado no Antigo Testamento, isto é,
como uma pessoa desencarnada (v. 39).
Fora as epistolas
paulinas, há também passagens do Novo Testamento que parecem usar o termo alma em um sentido dualístico. Em Apocalipse
6: 9-11, os santos que foram mortos são referidos como “almas” dos mártires que
estão no estado intermediário aguardando a ressurreição final (cf. Apocalipse
20: 5-6). Os santos no estado intermediário são retratados como conscientes
e vivos e são metaforicamente descritos com imagens visíveis perceptivas de uma
maneira comparável à imagem do Antigo Testamento do sheol. Além disso,
Mateus 10:28 diz: ” E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a
alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o
corpo.” Neste texto, psuche refere-se
a algo que pode existir sem o corpo e, portanto, “alma” e “corpo” não podem ser
simplesmente dois termos diferentes que se referem à pessoa como uma unidade
psicossomática. A maneira mais natural de tomar as palavras de Jesus aqui
é como uma expressão de uma forma judaica de dualismo.
O Ensino sobre o Estado
intermediário no Novo Testamento
Uma série de passagens de
outras tradições neotestamentária pode ser razoavelmente tomada para afirmar um
estado intermediário desencarnado entre a morte e a ressurreição final. No
debate de Jesus com os saduceus (Mateus 22: 23-33; Marcos 12: 18-27, Lucas 20:
27-40), ele especifica o tempo da ressurreição como um evento futuro geral “na
era por vir” (Lucas 20:35), uma compreensão da ressurreição abraçada pelos
fariseus daquele tempo. Como o contexto mostra (Lucas 20:39), eles aprovam
o ensinamento de Jesus sobre o estado intermediário e a ressurreição (veja
também João 5: 28-29; 11: 23-24). Além disso, Jesus afirma que os
patriarcas, como representantes de todas as pessoas, estão atualmente vivos no
estado intermediário, porque “todos vivem para Ele” (Lucas 20:38, cf. Mateus
22:37, onde Jesus fundamentou seu argumento no tempo presente do verbo:
Deus é , isto é, continua sendo seu
Deus, e assim, eles continuam sendo).
Além disso, há o relato evangélico da transfiguração (por
exemplo, Mateus 17: 1-13), em que Elias (que nunca morreu) e Moisés (que
morreu) aparecem com Jesus. A maneira mais natural de interpretar este
texto é entender que Moisés e Elias continuaram a existir – Moisés não foi
recriado para este único evento – e foi visto visivelmente; assim, a
passagem da transfiguração indica um estado intermediário.
A parábola de Lázaro (Lucas 16: 19-31) é uma descrição do
estado intermediário no hades; isto não é ainda o Gehenna (onde os
perdidos serão finalmente lançados). A parábola não é de fácil
entendimento, mas parece seguro concluir que Jesus está, pelo menos, ensinando
a existência de pessoas conscientes e vivas no estado intermediário antes da
ressurreição final. Isto fica claro a partir da discussão sobre os
parentes do rico que ainda estão vivos sobre a terra com a oportunidade de
aceitar a fé.
Em Lucas 23: 42-43, Jesus
promete ao ladrão na cruz que “hoje você estará comigo no Paraíso”. O termo
“hoje” deve ser tomado em seu sentido natural, a saber, que o homem estaria com
Jesus no mesmo dia no estado intermediário após a morte. No judaísmo
intertestamentário, o paraíso era a morada dos mortos fiéis antes da
ressurreição final. 7 No caso de
Jesus, este texto, aliado a outros ensinamentos do Novo Testamento sobre a
cristologia, implica que Jesus continuou a existir como pessoa desencarnada
totalmente humana após a Sua morte e antes da Sua ressurreição
corporal. Isso demonstra claramente que o ladrão existia em um estado
intermédio desencarnado, como Jesus, o que só é possível se o ladrão fosse mais
do que seu corpo.
Antropologia do Novo
Testamento: os escritos paulinos
Quando nos voltamos para o ensino paulino, temos várias
linhas fortes de evidências que se unem para justificar a afirmação de que ele
ensinou um dualismo.
Atos 23: 6-8. Paulo concorda com os fariseus em detrimento dos saduceus
na crença na existência dos anjos, dos espíritos e da ressurreição
final. Quando Paulo se refere à crença da “ressurreição dos mortos”, ele
está afirmando o ensinamento farisaico da vida após a morte, que incluía a
noção de pessoa como um espírito desencarnado aguardando a ressurreição final.
1 Tessalonicenses 4:
13-18. Entre outras coisas,
Paulo afirma aqui a ideia de que os crentes mortos aguardam uma futura
ressurreição por conta da Segunda Vinda de Jesus. Além disso, a descrição
de Paulo dos que estão no estado intermediário como “adormecidos” simplesmente
descreve pessoas que, enquanto conscientes e ativas no além, não são mais
ativas corporalmente aqui na terra. 1 Tessalonicenses 5:10 refere-se aos
que estão dormindo como aqueles que estão vivendo com Cristo, uma descrição que
não permite uma visão de extinção / recriação da vida após a morte.
1 Coríntios 15. Esta passagem sublinha o ensinamento geral de 1
Tessalonicenses 4: 13-18: Haverá uma futura ressurreição geral no final dos
tempos (ver v. 24, 51-52) após um período de sono (vv 18, 21, 51), um período
de sobrevivência consciente e ativa, embora breve, em um estado intermediário
desencarnado. Além disso, o versículo 35 parece fazer uma clara distinção
entre as pessoas e seus corpos.
2 Coríntios 5: 1-10. Aqui, Paulo deseja permanecer até a parousia, porque isso
faria com que seu corpo terreno imediatamente fosse transformado em um corpo de
ressurreição e, assim, ele não precisaria passar por um estado intermediário
não natural. Paulo se refere ao corpo terrestre, como a “tenda” (v.
1); e ele descreve o corpo da ressurreição como um “edifício”, uma frase
que não pode se referir a uma habitação celestial, pois é algo que pode ser
vestido (v. 2-3). Paulo se refere ao estado intermediário desencarnado
como um estado de nudez (v. 3-4), e ele diz explicitamente que estar ausente do
corpo é estar presente com o Senhor (v. 8), afirmando assim o conceito de vida
após a morte.
O contexto maior de 2
Coríntios acrescenta mais peso a esta interpretação. No capítulo 4, o tema
de Paulo é que, dado o ministério da nova aliança, não devemos perder o ânimo
diante das dificuldades. A progressão do pensamento de Paulo é bastante
importante. Nos versículos 7-11, ele aborda a questão da perseguição,
especialmente a perseguição corporal, afirmando que se deve continuar a
manifestar a vida de Jesus na “carne mortal” (v.11). Parte da nossa
resistência vem da nossa esperança de ressurreição, que ele compara à
ressurreição de Jesus. (Nota: Jesus não foi recriado em Sua ressurreição,
Ele continuou a existir conscientemente como Deus-homem entre Sua crucificação
e ressurreição, tempo em que se reuniu com seu corpo, agora um corpo de
ressurreição (vv. 12-18).
A questão natural que isso suscita é, que tipo de
esperança nós temos se o próprio corpo for destruído? No capítulo 5, Paulo
aborda isso ensinando sobre o estado intermediário e sua relação com a futura
ressurreição. Se esta interpretação é correta, então ela tem implicações
dualistas claras (Cf. Fl 1: 21-24).
2 Coríntios 12: 1-4. Paulo conta uma experiência que teve 14 anos
antes. No versículo 3 ele diz que não sabe se ainda estava em seu corpo
durante a experiência ou se ele estava desencarnado. O fato de Paulo
permitir a possibilidade de existir fora do corpo é suficiente para mostrar que
ele reconheceu que sua personalidade não era idêntica ao seu corpo. É
justamente porque Paulo se viu como uma alma / espírito unido a um corpo que
esta era uma possibilidade real para ele.
O ensino claro da Escritura, então, é que um ser humano
consiste em corpo e alma. Embora alguns pensadores cristãos neguem essa
conclusão, sua negação não é apoiada pelas Escrituras, que abrange uma
dicotomia/tricotomia de alma (espírito) e corpo.
——————
NOTAS
1 Warren S. Brown, Nancey
Murphy e H. Newton Malony, “Prefácio,” O que aconteceu com a
alma? ed. Warren S. Brown, Nancey Murphy e H. Newton
Malony (Minneapolis: Fortress, 1998), xiii.
2 JP Moreland e Scott B.
Rae, Corpo e Alma: Natureza Humana e Crise em Ética (Downers
Grove, IL: InterVarsity Press, 2000).
3 Veja Robert A.
Morey, Death and the Afterlife (Minneapolis: Bethany,
1984), 45-51.
4 Brown, Driver e
Briggs, um léxico hebraico e inglês do Antigo Testamento (Oxford:
Clarendon, 1953, 1977), 220.
5 Em algumas traduções
modernas, nephesh é traduzido como
“homem”, “eu”, “ser” e assim por diante. Em traduções anteriores, como a
versão King James, foi traduzida como “alma”. Em qualquer caso, o contexto deve
ser usado para determinar o significado de Nephesh .
6 Veja Morey,
51-53; Hans Walter Wolff, Antropologia do Antigo
Testamento (Philadelphia: Fortress Press, 1974), 32-39.
7 Veja John W.
Cooper, Body, Soul e Life Everlasting (Grand Rapids:
Eerdmans, 1989),
Por J.P Moreland[2]
Fonte:
http://www.equip.org/article/restoring-the-soul-to-christianity/
[1] Este artigo apareceu
pela primeira vez na edição Volume 23 / Número 1 do Christian Research Journal.
[2] JP Moreland é professor de filosofia na
Talbot School of Theology, Biola University em La Mirada, CA. Moreland publicou vários livros sobre
filosofia cristã e possui artigos em revistas especializadas

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Graça e Paz de Cristo, será um prazer receber seu comentário. Jesus te abençoe.